Falar em prospectiva ou retrospectiva da gastronomia brasileira no ano que passou, exigiria de mim algo que não tenho para dar. Estou aqui nas franjas das Minas Gerais e, apesar de saber que tenho um mundo acessível via internet, sabemos que, ainda bem, não é a mesma coisa que cheirar, experimentar, degustar. Tampouco tive condições de sair por aí para um olho no olho com os chefs, nem boca a boca com as comidas e gentes que mereceram ser experimentadas. Mas tenho muito firme uma sensação de algo que vem acontecendo já há algum tempo - e sedimentou-se nesse ano.
O ano de 2015 não foi bom para a gastronomia. Muitos se adiantarão em dizer que não foi bom para ninguém, crise, etc. Embora a crise não possa ser negada, eu não atribuiria a má sorte ao já imenso fardo de dona Dilma, não. Mas ao paradoxo da popularização. Vejam bem: Imaginemos a cultura como um imenso trem, cada vagão um nicho com as várias manifestações de nossa cultura, conhecimento, arte, crença, moral, leis. E cada um desses vagões tiveram a temperatura aumentada pelo calor da gastronomia. Muito tempo atrás, a comida nem era considerada como cultura, ficava lá relegada ao rabo do fogão. Eis que todo mundo resolveu cozinhar, querer experimentar, postar seus pratos nas redes sociais, contar aos outros o que comeu, onde comeu.
Parecia óbvio o investimento dos jornais, das mídias de forma geral, na informação desse segmento. Mas não, eis que o Caderno Comida, do jornal Folha de S. Paulo, fecha suas páginas. Entrega Nina Horta à solidão da internet, dispensa a maravilhosa ilustradora da Nina Horta, a Maria Eugênia. Empurra o Josimar Melo, que é o nosso maior crítico gastronômico, para o caderno de turismo - é por ele ser exigente demais?; por ter desancado restaurantes que não podem ser desmentidos? Simplesmente não entendi... Talvez alguém possa me explicar por que razão esses dois importantes intelectuais da gastronomia brasileira eram lidos antes e agora não são mais, quando o universo de interessados por gastronomia é, hoje, incomensuravelmente maior?
Todo mundo parece assistir aos Masters Chefs do mundo inteiro, pessoas comuns, que sem experiência no meio, começaram a ganhar dinheiro com posts de comida na internet. Os chefs estão na TV, se transformaram em garotos propagandas, astros que anunciam produtos banais que nada têm a ver com a boa comida. E com isso, nunca estiveram tão longe de seus fogões como agora. Um bom exemplo disso é que o novo restaurante de Erick Jacquin, chef e um dos jurados de um programa de televisão, teve uma péssima crítica de um seu novo cardápio - e competência jamais lhe faltou.
Seguir o dinheiro é quase sempre resposta para tudo. Parece que está acontecendo o seguinte: Nina Horta, Josimar Melo tiveram e têm um número de leitores e ou admiradores, mas não foram polos atrativos dos novos membros e esses são muitos, certamente com poder de compra. Fico triste porque deveria caber todo mundo, é a pluralidade. Fico triste porque gente como esses dois foram responsáveis durante muitos anos a manter aceso um pequeno braseiro, e quando a coisa vira vulcão eles são arremessados para fora dos vagões.
É preciso lembrá-los, é preciso lê-los.
DICA DA SEMANA
Aproveitamento
Em dias de muita comida e muita variedade, é natural que ocorra o desperdício. Natural para a nossa cultura, o que é um grande erro. E a gente se esquece que pode salvar tudo, congelando ou transformando.
O congelamento pode e deve ser utilizado mesmo depois do prato pronto, temos o hábito de aceitar o congelamento de coisas cruas, mas praticamos pouco para comidas prontas, como reaproveitamento. Seria melhor que nossos freezer estivessem abarrotados de restinhos.
A dica importante é: Só congele uma vez! Uma vez descongelado, tem que ser consumido todo. A segunda dica, que parece boba, mas não é, porque nos esquecemos, é: Congele em pequenas porções, aliás, ideais para o tamanho de sua família, em sacos plásticos limpos. Faça um teste, compre saquinhos de sacolé para congelar restos de molhos, de leite. O arroz pode ser congelado, o feijão e sem que se perca quase nada do sabor. O queijo pode ser dividido em pedaços e congelado separadamente.
Isso ajuda não só contra o desperdício de dinheiro, mas também de tempo, quando tudo parece difícil ter restinhos pode salvar uma refeição.