- Sabe de uma coisa, querida? Ah, nem vou lhe contar. Quem diria...
- Conta, conta, conta .
- Acho que não. Deixa pra lá.
- Por quê?
- Você não ia acreditar. Juro. Esquece.
- Só vou saber se acredito depois de me contar.
- Eu nem devia ter lhe adiantado nada.
- Por quê? Pois agora fiquei curiosa e zangada se não me contar.
- Não falei nada. Acabou.
- Por que essa indecisão?
- Não é bem indecisão...
- Então o que é? Fala logo. Me deixou morta de curiosidade.
- Muito bem. Vamos lá. Depois não vá dizer que é mentira minha.
- Conta de uma vez, bem. Meu Deus do céu! Fala logo.
- Pois muito bem. Vou lhe contar com todos os detalhes.
Contou, contou, contou. Os olhos dela abriam-se, abriam-se, abriam-se.
Ele suspirou:
- Pois foi isto.
Ela pôs a mão na boca, olhos esbugalhados:
- Não acredito! Juro que não acredito! Como pôde? Deus do céu!
Soltou uma gargalhada, balançou a cabeça:
- Logo ela? Mas logo ela... Este mundo está mesmo perdido.
- Está mesmo. Nisto concordo.
- Perdido. Perdido. Perdidíssimo.
- Claro. E não passa adiante, hem.
- Nem em confissão, bem.
Beijaram-se. Despediram-se.
Perto de casa viu uma amiga. Chamou-a:
- Vou te contar uma e você não vai acreditar.
- Conta. Conta. Conta.
- O mundo está mesmo perdido. E não passa para ninguém.
- Conta. Conta. Conta.
E o mundo perdido foi tomando conta da cidade em velocidade espantosa.