04 de abril de 2026

Voo Fênix


| Tempo de leitura: 4 min

Bennu, na mitologia egípcia, era uma ave parecida à nossa garça . Só que em tamanho plus size. Cumprido seu ciclo de vida, pousava sobre a pira do Deus Rá e se deixava consumir pelas chamas. Quando tudo eram cinzas, renascia bela e vigorosa.

Os gregos recriaram o mito e lhe conferiram outro nome a partir do historiador Heródoto, um dos primeiros a descrever o pássaro no pergaminho. Ao fazê-lo, imaginou-o sobre uma palmeira chamada phoinix. A distinção fônica com phoenix, no fechamento da vogal, seria resultado de um processo de evolução da fala muito comum em todos os idiomas, ensinam os filólogos.

Hesíodo, poeta helênico do século VIII a.C., afirmava que a Fênix vivia nove vezes o tempo da longa existência do corvo. Outros poetas e prosadores mencionavam um número mágico: 97.200 anos. Muitos lhe atribuíram imortalidade.

De forma semelhante a Bennu, quando Fênix sentia a morte se aproximar, construía fogueira com ramos de canela, sálvia e mirra e, mergulhando nas labaredas, deixava-se queimar. Quando tudo estava incinerado, ela ressurgia cheia de vida e voava direto para o altar principal do templo de Heliópolis, consagrado ao deus Sol.

Alegoria da morte e renascimento diários da estrela que nos garante a vida, como todos os outros grandes mitos de diferentes culturas, este desperta analogias em muitos campos da realidade humana. Na arte cristã, tornou-se símbolo popular da ressurreição de Cristo e quer no âmbito religioso, quer no secular, sua mensagem é de perpetuação e esperança.

Há séculos, inspirados pela beleza do mito, poetas e prosadores têm se apoderado do tema. Só para lembrar alguns- o persa Rumi, o francês Voltaire, a brasileira Cecília Meirelles, os ingleses C.S. Lewis e J.K.Rowling fizeram uso estético da Fênix com resultados sublimes.

Mito em mente, li o livro de Lúcia Helena de Lima Medeiros, Voo Fênix, editora Ouro Fino Express e prefácio de Marco Antônio Canelli.

Uma das qualidades de um livro de poemas é a unidade temática, característica que falta a alguns que recebo para avaliação. Em geral, na ânsia de publicar, o poeta reúne os poemas que produziu ao longo de um tempo curto ou longo e os enfeixa em volume único. Acontece que a poesia não visita o poeta em blocos temáticos, como aos leigos pode parecer, mas de forma intermitente. Essa intermitência que determina a (des) organização dos motivos em feixes é o denominador comum dos poemas de Lúcia Helena.

Em Voo Fênix, à medida que o leitor avança pelas páginas, pode perceber a nítida prevalência da temática da dualidade escuro/claro, morte/vida, aceso/ apagado, alto/baixo, calado/falado, e, especialmente, a sintaxe singular que à poeta advém depois de um tempo de não-palavras que lhe parece mortal. Perceptível não só na pluralidade de assuntos, como nos vocábulos-chave que remetem a sons e silêncios, a ideia dos renascimentos permeia todos os poemas.

Nesse contexto a metalinguagem, tão cara aos escritores contemporâneos, aparece marcada pela pluralidade de sintagmas ligados ao mito, já no primeiro poema, Fênix:

“Fênix.../Luz dúbia/De poesia inacabada//magia intercelular/mordida/tolhida/viva// Fenix.../êxodo de um sonho/ inocente/ cego// fogo gélido/ cinzas mornas/ matiz de olhar quente/ crepitante/terno/ Fênix.../amor póstumo/ poema intraduzível/ perpétuo/ no currículo das estrelas/ impresso// Fênix rediviva/ imune/ imaculada/ sempre morta/ jaz viva...”

Ela também distingue Inerte: “A mão tecia a poesia/ que a alma induzia// A mão criava asas/ que a poesia inventava// Agora a mão se instala/ muda e inerte/ e a poesia sem arma/ se cala”
Cresce em Poeminerente, onde o silêncio é “ barreira insólita/ entre o eu/ os outros eus/ e sua híbrida simetria”, já que “ a voz da inspiração/ inarticulada se cala/ e o hálito da poesia é amorfo e frio/ ante a vastidão das ausências”.

Alcança alta voltagem em Concepção: “O sonho fertiliza/ o sêmen infecundado/ da palavra emudecida// nutre de emoção/ o embrião da poesia/ e dá à luz/ um mundo constelado/ de versos / ensimesmados.”

Não são simples os versos brancos de ritmo difuso que compõem Voo Fênix. Muito menos são fáceis. Traduzem uma visão sofisticada do ser, da vida e da poesia. Inspiram o leitor sensível a um movimento para o âmago e o presenteiam com epifanias como a que se entrevê em Gênese, que considero uma síntese dos poemas selecionados para o livro:

“Agora sei/ O inesperado reside/ entre a linha do ceticismo/ e a linha do imprevisível/ e virá desconsertar convicções/ delinear contornos/decifrar enigmas/ e libertar/ pássaros adormecidos... E virá plantar/ no chão das manhãs/ um eu renovado/ pra que ele floresça e cresça/ transpondo a tarde/ e anoiteça/ transpondo o céu// Me fará concretizar/ o indizível/ integrando expressão e impressão/ e realizando/por fim//presença e completude/de todas as coisas//desde a gênese/ de mim...”

Lúcia Helena Lima Medeiros tem 65 anos e mora em Batatais, cidade onde nasceu. Seu livro é convite a um voo solo para que do alto de sua poesia transcendente o leitor se deixe tocar pela consciência de que tudo é finito mas pode conter em si grãos de eternidade. Exatamente por isso é esperançoso.