Nunca a tinha visto antes daquele dia. Tipo mignon, morena, cabelos longos, magra. Falava com tranquilidade, sem atropelar as palavras. Vestia calças jeans, blusa de lã vermelha, que o dia estava frio. Quando cheguei, relatava acontecimentos para nossa amiga comum, no salão de quem havíamos nos encontrado fortuitamente. Interrompeu, cumprimentou-me com um sorriso aberto, de pura felicidade. E continuou falando: que ele tinha dados grandes passos; que imagine só, quando ela lhe pediu um beijo, recentemente, ele ofereceu o rosto. Ela ficou emocionada, porque viu no gesto reconhecidamente afetivo, que ele poderia sair do casulo onde se encontra, quem sabe? Ela o matriculara para tomar aulas de natação: eles são muito sensitivos, vocês sabem, disse para nós, é uma alegria quando perde o medo e entra na piscina. Mas reluta tanto para entrar, quanto para sair. Ainda não saiu das vogais, mas ela percebe lentos progressos, que comemora como absolutos sucessos: antes, só usava a vogal i, agora já usa a ou o com certa frequência. Não apresentou mais comportamento agressivo, nem com ele mesmo, nem com os outros, embora continue com baixíssima capacidade de atenção. A moça tomou fôlego, deu um baita sorriso, sentou-se na cadeira para cortar o cabelo. “É assim mesmo”, pontuou. “O que nos alenta é saber que pessoas com a síndrome, podem não perder todos os sintomas com o tratamento, mas conseguem conviver com suas famílias ou na sociedade. Vivemos com essa esperança. E sem perder a fé, senão na cura, mas nas boas possibilidades.”
Difícil eu ficar muda, mas fiquei. E sem entender o problema da criança. Nossa amiga em comum esclareceu mais tarde. Logo que a criança nasceu e apresentou a síndrome, a mãe abandonou filho e marido e foi viver em outro bairro. Não suportou ter filho autista, justificou que era muito nova para perder a vida cuidando de alguém que nunca iria se curar. E foi embora. O pai da criança se viu desamparado, sem rumo. Um dia alguém o apresentou à moça mignon, ficaram amigos, casaram-se. E ela se apaixonou pela criança.
Perto das comemorações do Dia das Mães, pensei em dividir com as mães essa história que mostra como o tal instinto materno não depende do fato da mãe ser biológica ou do coração, que depende muito mais da capacidade de amar de cada uma das mulheres. E, note bem, amar o imperfeito, o difícil, o que não se adapta.
Assim, o amor das mães cujos filhos estão na prisão, me emociona. Elas garantem que foi, apenas, “um momento de bobice deles, que eles não são bandidos”. O amor de quem acolheu a criança de pais desconhecidos e a ama incondicionalmente, me emociona pois, se dos filhos de barriga é difícil aceitar defeitos, idiossincrasias e ignorá-los, ouvir a defesa dos filhos imperfeitos vindos das mães de coração, me emociona.
Deixo registrado meu beijo para todas as mães que conheço, que não conheço, que lerão ou não esse jornal, através do meu mantra particular. Às mães dos meus amigos e dos amigos dos meus filhos. Mães das minhas amigas, das amigas que são mães, das que nunca foram e das que optaram por não ser. Mães dos meus inimigos e dos seus inimigos mais ferrenhos. Mães que sofrem, mães que nem ligam. Mães que esquecem, ou que nem se lembram. Mães que se importam, mães que são importantes. Mães solteiras, casadas, viúvas, divorciadas. Mães que nem são mães ainda ou mulheres que nunca o serão. Mães dos meus netos e netas, mães de suas famílias. Mães da minha família. Homens pais que assumem o papel de mãe na família. A todas as espécies de mães do meu mundo - reconhecidas ou ignoradas - mando meu beijo amigo e fraterno.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.b