Quando entregar as telas pintadas especialmente para a festa do Divino Espírito Santo, em Delfinópolis, neste sábado, a artista plástica Maria Goret Chagas, 63, retomará uma história de 60 anos atrás que marcou significativa e definitivamente sua vida. Palestrante, professora universitária aposentada, pintora e escritora, Goret tem uma trajetória muito particular de superação, de religiosidade, um modo próprio de enfrentar barreiras que foram sendo uma a uma ultrapassadas.
Nascida em 1951 na mesma cidade onde será a principal convidada para a tradicional quermesse, a tetraplegia a atingiu sem que nenhum diagnóstico possível de entendimento fosse feito. Os pés eram tortos para dentro e os membros superiores estavam atrofiados. Nenhum dos outros oito irmãos tiveram algo parecido.
O pai, Alaíde, morto em 1975, e a mãe, Diva, tiveram papel decisivo na educação da filha, com tratamento feito em São Paulo. Goret teve os primeiros anos de educação formal passados em casa e o dom de pintar, de criar, também veio cedo. Os brinquedos eram lápis, papéis e a desenvoltura para os desenhos, as imagens já se manifestavam. Fazia isso o dia inteiro, já que não andava, ao lado do pai, na loja que tinham no Centro da cidade.
Aos três anos, Goret conta que fez birra para ir à festa do Divino. No terceiro dia das comemorações e do evento, diz ter soltado um grito que mesmo para uma criança parecia um ato de libertação: tinha ficado em pé e começara a andar.
Não foi um movimento mecânico, normal para uma criança, dado a todas as circunstâncias e características que marcavam fisicamente aquela criança. Para a medicina, foi um milagre e pouco mais ou quase nada podia ser dito sobre o que tinha acabado de acontecer.
Goret endireitou os pés e ainda se livrou de 13 cirurgias que estavam previstas para serem feitas. Na última ida a São Paulo voltou caminhando normalmente. As pernas, hoje, são perfeitas.
Por isso, 60 anos depois, o convite da organização da Festa do Divino de Delfinópolis vem carregado de tanto simbolismo. Quem a convidou, garante ela, não sabia dessa passagem que acabamos de narrar. Mesmo ela, depois de algumas contas, concluiu que desde o dia em que gritou no meio do povo por começar a andar já tinham se passado seis décadas.
Goret viveu em Delfinópolis até os 10 anos, quando toda a família mudou-se para Franca. Os desenhos com os pés começaram ainda na infância, repetindo os movimentos que já fazia para brincar. Assim foi alfabetizada, também usando os pés, até que a professora Silvia tentou fazer a aluna usar a boca para escrever e desenhar.
Se fisicamente a criança e adolescente era diferente, nenhuma importância ou relevância isso parece ter tido em sua trajetória. Cursou Letras na Unesp de Franca e Educação Artística na Unifran. Durante 28 anos deu aulas de literatura nesta instituição, onde ficou até se aposentar.
Desde 2001, quando foi convidada a fazer parte da Associação de Pintores com a Boca e os Pés, entidade fundada na Suíça, o cotidiano de Maria Goret se transformou. A APBP, presente em mais de 70 países, exige uma produção mensal de quadros que são enviados para a sede, na Europa, onde podem virar peças publicitárias, como calendários. Depois de aproveitados, voltam para os autores e podem ser vendidos.
Assim, Maria Goret faz com que seu trabalho corra o mundo e aqui mesmo, no Brasil, amplia seu conhecimentos e sua rede de contatos com os 48 brasileiros membros da associação.
Além da pintura, das palestras, entrevistas e de tantos outros compromissos, que envolvem oficinas de inclusão para crianças com deficiência, como a que realizou no Memorial da América Latina, em São Paulo, sobra tempo para se dedicar à produção de três livros, sendo que os últimos dois abordam a inclusão como tema. Era uma vez uma garota de olhos encantados conta a história de uma menina cega e A estrela de uma ponta teve 12 mil exemplares no modo convencional e 1.800 em braile, com distribuição em escolas e bibliotecas públicas.
Sem querer entrar no senso comum, o de perguntar sobre como foi sua infância e adolescência, em comparação com as colegas, Goret fala de modo muito natural sobre as poucas limitações que teve. “Na minha vida inteira, acho que o maior milagre foi ter uma cabeça muito boa”, disse. “Em qualquer ambiente, mesmo que ninguém me conheça, me sinto naturalmente inserida. Se há algum estranhamento, sempre lido com bom humor. Durante toda a minha trajetória nunca sofri preconceito, sempre abri portas. E quando começo a pintar, aparece a admiração”.
Religiosa, comentou que tem uma relação com Deus dentro de um conceito muito particular de intimidade.
Quando, no final da conversa, após abordar o assunto sobre sua religiosidade e sobre ter considerado um milagre o fato de ter conseguido andar, mesmo quando tantos prognósticos mostravam o contrário, Goret fez questão de dizer que em nada se sente diferente de qualquer pessoa, seja pelo físico ou pela graça que julga ter recebido. “Não sou nada diferente de ninguém. Quando falo desse milagre, queria falar para as pessoas estarem abertas a Deus. Se você prestar atenção, milagres acontecem a todo instante na nossa vida”.
A programação da Festa do Divino Espírito Santo de Delfinópolis inclui neste sábado o almoço, a partir das 12 horas, e a missa, que deve começar às 19h30. O leilão com as obras de Maria Goret terá início às 21horas.