11 de julho de 2026

O sertão é aqui. Especial mostra situação crítica das cidades da região


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O garoto Elieber de Aguiar olha para local conhecido como “Garrafão”, em Ibiraci (MG), que secou após o longo período de estiagem enfrentado este ano
Agreste de Patrocínio Paulista. Semi-árido de Rifaina. Zona da Mata de Delfinópolis. Caatinga de Claraval. Perene e lentamente, como na velocidade das águas que corriam por aqui, a zona rural dessa porção paulista-mineira do Brasil mudou. Para os mais realistas ou pessimistas, mudou irreversivelmente. 
 
O que eram paisagem e termos só vistos e ouvidos no Nordeste do País, e que nos chegavam pela literatura, cinema e televisão, agora estão aqui no sopé da Serra da Canastra, amedrontando gente que está fixada em propriedades desde há muitas gerações ricas em recursos hídricos.
 
Não foi preciso viajar mais do que cem quilômetros ao redor de Franca para encontrar gente desesperada com a secura do solo. Agricultores de uma vida toda, com 60, 70, 80 anos de idade que agora olham para o que um dia foi córrego, foi rio, foi ribeirão e não veem nada além de um rego seco, esturricado.
 
Enquanto na cidade, moradores desperdiçam água lavando suas calçadas e carros, molhando seus jardins despreocupadamente enquanto contam alguma novidade ao celular, sítios, chácaras e fazendas estão à beira do colapso. O que era manancial vital para pessoas e animais desapareceu em um ano.
 
O que era cachoeira em Rifaina, menos de dez anos atrás, hoje é rastro no morro. Nada está sobrevivendo. Em muitos quilômetros rodados, a paisagem ocre só cede lugar para o cinza-negro das queimadas que estão assolando pastagens inteiras e áreas de mananciais.
 
O jeito, para quem ainda finca o pé e insiste em acreditar que a estação das chuvas trará algum alívio, é soltar o gado para correr atrás de água ele mesmo.
 
A magreza dos animais, de porcos a cachorros, nos faz lembrar que muitas das vítimas de hoje podem bem ter sido as geradoras de todo o problema, explicado pelo avanço desenfreado do agronegócio, pelo desmatamento sem freio das matas ciliares, pelo assoreamento de rios e soterramento de nascentes, pela ignorância em entender que a preservação ambiental era questão de sobrevivência e não apenas discurso de gente chata e engajada querendo salvar plantinhas e peixes.
 
Para o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) a percepção do homem do campo está correta ao falar da falta que as chuvas estão fazendo. O último verão e outono, atípicos, tiveram chuvas muito abaixo da normalidade, sendo que praticamente desde outubro do ano passado chove abaixo da média em todos os meses.
 
Para o órgão, não se pode dizer que o sistema de chuvas está definitivamente modificado, mas que a estação chuvosa esteve alterada para baixo, no que chamam de anomalia negativa de precipitação.
 
Neste cenário, que está obrigando famílias inteiras a reconsiderarem seu futuro, não para daqui a dez anos, mas para os próximos meses, uma expressão ouvida em lugares diferentes, por pessoas que não se conheciam, resume bem o sentimento dessa gente: “onde falta água, falta vida”.

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