Família espera por Justiça após morte de idoso de 93 anos no Jd. Portinari
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Salomé, mulher de Florentino, chora ao falar da trágica morte do marido aposentado nesta semana
Nos últimos anos, a rotina de Dorcino Manoel Florentino, 93, era acordar muito cedo, ir à padaria, localizada a menos de cem metros da casa onde morava, comprar três pães e voltar. A neta, Talita, que mora nos fundos da casa onde o avô residia, ganhava um deles. Os outros dois eram para o aposentado e sua Salomé, com quem estava casado havia 65 anos.
Apesar do Alzheimer, diagnosticado há pouco mais de dois anos, Dorcino era independente e se movimentava bem, corpo um pouco curvado para a frente.
No Portinari, onde a família mora há 30 anos, todos os vizinhos se davam bem com o ex-guarda noturno que passava seus dias batendo pregos em cadeiras velhas, bancos e sentado no chão matando formigas com um sapato.
A doença trouxe alguns problemas. Dorcino, ultimamente, estava inquieto. Arrastava móveis no quarto de madrugada e mesmo depois de almoçar jurava que ninguém tinha dado comida a ele. Salomé confirma tudo, com a resignação de quem, já com idade avançada, nada pode fazer. Rodeada por parentes, ela disse que foi na sexta passada que a realidade veio à tona. Na hora do café, quando um ritual de décadas acabou.
Dorcino foi vítima ainda não se sabe do quê. Raiva, ignorância, maldade intrínseca, esquizofrenia. Qualquer coisa serve para qualificar o atropelamento de que foi vítima no dia 2, pela manhã, a caminho da padaria, faltando cinco minutos para as sete da manhã.
O aposentado foi atingido na calçada de sua casa pela Kombi do vizinho, Evilázio Rodrigues, morador do bairro há 10 meses, que estava ao volante. Socorrido ao pronto socorro, Dorcino insistiu com quem o socorreu que alguém havia passado em cima dele. Nessa hora, o Alzheimer tirou o crédito da informação. Rodrigues jurou que tinha batido, sem querer, com o retrovisor externo no vizinho.
No hospital, o médico sugeriu investigar. A coluna vertebral com lesões graves e o traumatismo craniano indicavam que algo muito além de um esbarrão tinha acontecido. A resposta veio com as imagens da câmara de segurança da padaria frequentada por Dorcino. Evilázio foi desmascarado. A cena, para quem assiste é chocante. O motorista acerta o aposentado na calçada, com a rua ainda vazia, passando sobre ele duas vezes.
Católicos, vindos de Sacramento (MG), Dorcino e Salomé recebiam comunhão em casa, já que as missas de domingo tinham ficado inviáveis por causa da doença. O ex-motorista, que disse que tudo não passou de um acidente, chegou a ser ameaçado por vizinhos. Na sexta-feira, Rodrigues e a família desapareceram de casa. Sua mulher, evangélica, apareceu para pedir desculpas.
A mudança foi sugestão da polícia. “O delegado acha que ele tem problema na cabeça, não é possível’, disse uma policial. Enquanto a família de Dorcino pede Justiça,Evilázio está solto. Apesar do inquérito, que deverá concluir por homicídio doloso, é improvável, por causa dos seus 76 anos, que Evilázio seja preso. A reportagem não conseguiu localizá-lo.