08 de julho de 2026

A vida nas alturas


| Tempo de leitura: 3 min
O casal Genésio e Mariana de Castro na porta de sua casa, no alto de uma montanha na região de Ibiraci, onde vive há quase 40 anos
Esqueça a ideia de condomínio residencial, ruas planas ou chácaras às margens de rodovias. Imagine uma casa fincada em um cenário repleto de verde, pássaros, belas paisagens e, de quebra, em um ponto alto da serra. Apesar de parecer inviável e inacessível, endereços como o descrito existem e não muito distantes de Franca.
 
Nas serras de Minas Gerais entre Ibiraci e Claraval, famílias vivem em locais que chamam a atenção de quem gosta de fugir das baixadas e, claro, não tem medo de altura. São refúgios que assumem jeito de roça, tem clima de montanha e uma paisagem perfeita para deixar qualquer tipo de preocupação de lado.
 
O casal de agricultores José Joaquim da Silva, 43 e Iralene Rosa de Jesus, 38, mais o filho de 18 anos, estão entre essas famílias vizinhas de Franca que moram nas “alturas”. Baianos de Vitória da Conquista, eles vieram para a região trabalhar na panha de café e por aqui ficaram. Acabaram conhecendo a região das Furnas dos Taveira e no alto de uma das serras da estrada do Nego Elói ergueram o sítio Alagoas, onde moram há oito anos. “Sempre quis morar na roça e resolvemos apostar nessa terra. Algumas pessoas tentaram fazer a gente desistir por ser uma encosta”, relembrou Iralene, que hoje se orgulha do lugar onde vive. “As pessoas quando chegam sempre elogiam. Adoram a visão e diferente do que falavam, tudo o que planta aqui dá. A terra aqui é muito boa.” Na propriedade, o forte é a produção de café. Inclusive, as diversas lavouras vistas de cima dão a impressão de um grandioso mosaico em tons de verde.
 
José diz que descobriu junto aos engenheiros agrônomos que sua propriedade está uma altitude de 1,1 mil metros acima do nível do mar. De lá, segundo ele, é possível ver durante a noite as luzes de três cidades e até acompanhar os shows com fogos coloridos do Ano Novo.
 
O lugar, pontuado por sítios e pequenas propriedades rurais vizinhas, realmente é contemplativo e frio, muito frio nas noites de outono e inverno, de acordo com os moradores. “Aqui é fresco direto, venta sempre. Não faz calor”, disse Iralene, que muitas vezes precisa vedar a varanda com panos para barrar o vento.
 
Não muito distante dali, na região da Porteira da Pedra em Claraval, um sítio no alto da serra também tem uma visão impressionante. Para chegar até lá é preciso subir uma estreita estrada rural íngreme, com curvas e um enorme penhasco. Vencida a aventura da subida, é possível avistar belos atrativos naturais, como um imenso vale e a represa do Rio Grande. Em meio as árvores, desponta uma casa que vista de baixo parecia minúscula. Apesar dos indícios de moradia existente, o imóvel estava vazio e com um cadeado no portão.
 
Lugar de sossego
Em Ibiraci, a poucos quilômetros do distrito da Lage, o casal Genésio Eurípedes de Castro, 73 e Mariana Barbosa de Castro, 70, vive nas alturas e consegue visualizar longe no horizonte.
 
Genésio ainda trabalha no campo e lembra saudosista de quando conheceu a propriedade em 1975. Disse que foi até o local fazer uma troca de gado e se encantou com a visão, hoje um pouco diferente devido uma plantação de eucaliptos na fazenda vizinha. “Os antigos donos venderam e o novo proprietário resolveu plantar esses eucaliptos. Há dois anos, a vista era ainda mais bonita, hoje tampou tudo.”
 
Para a dona Mariana, que criou dois filhos no alto da serra, o ar é saudável e a vista ajuda a descansar a cabeça. Outro ponto favorável é a facilidade para sintonizar emissoras de rádio e TV. “Aqui tudo pega bem, vivo escutando a rádio Difusora.”
 
Da porta da sala, o cenário que se tem parece desenhado, porém dona Mariana minimiza e diz não estar 100% belo. “Agora está seco, não tem chovido. Gosto quando tudo fica verde.”