09 de julho de 2026

Vereador oferece dinheiro, mudas e vaca para sitiante ‘esquecer’ invasão


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Máquinas da Prefeitura foram flagradas pela reportagem do Comércio na última quinta-feira nas obras de alargamento de estrada
O vereador e candidato a deputado estadual por Franca, Miguel Laércio Mathias, o Laercinho (PP), foi flagrado oferecendo dinheiro, vaca e até mudas de eucalipto da Prefeitura para que o dono de um sítio às margens da Estrada Rural “Manuel Mathias” (pai do vereador), no Paiolzinho, não criasse problemas pelo fato de suas terras terem sido invadidas pela Prefeitura de Franca, que está fazendo o alargamento da via. 
 
As obras começaram há cerca de um mês. Atendendo a um pedido feito pelo vereador, cujos pais e irmãos têm propriedades no local, o secretário municipal de Serviços e Meio Ambiente, Ismar Tavares, assinou uma ordem de serviço para que a Emdef (Empresa Municipal para o Desenvolvimento de Franca) fizesse o alargamento e a reconstrução do leito carroçável (parte do solo onde transitam veículos) da Estrada “Manuel Mathias”. Para o local, foram deslocadas mais de 10 máquinas, um microônibus com cerca de 20 trabalhadores, caminhões e uma Saveiro.
 
Na última terça-feira, o sitiante João Miguel Siqueira Garcia, que tem um imóvel às margens da estrada há 12 anos, levou um susto. “Quando ia colocar ração para minha criação (de gado), vi um monte de homens da prefeitura arrancando minha cerca. Tinham máquinas derrubando meus eucaliptos. Desci correndo para ver o que estava acontecendo”. Chegando ao local, o sitiante foi informado pelo responsável que, a pedido do vereador Laercinho, estavam fazendo o alargamento da estrada e que precisavam usar as suas terras. “Pedi que eles me mostrassem um documento, uma ordem judicial ou algo que permitisse que eles fizessem isso sem a minha autorização. Eles não tinham nada. Simplesmente entraram derrubando tudo e passando as máquinas.”
 
Muito irritado, João disse que começou a discutir com o encarregado que decidiu suspender o serviço e voltar no dia seguinte. “No quarta, logo pela manhã, o Laercinho veio conversar comigo e com o meu cunhado (que estava em casa) e me ofereceu dinheiro, mudas e até um boi para que não falasse nada e aceitasse a invasão”, disse o sitiante.
 
A conversa com o vereador foi gravada por uma câmera presa ao pescoço da mulher de João. O vídeo tem cerca de 30 minutos. Nas imagens, o rosto do vereador só aparece ao final, mas sua voz é claramente identificada. Na gravação, Laercinho admite a irregularidade da obra. “É, eu errei. Eu devia ter te avisado, devia ter trazido algum papel, mas não achei que ia dar nisso”.
 
Depois tenta convencer João a “esquecer” a invasão de suas terras. “Vou te fazer uma proposta. Você quer uma vaca em troca desse pedaço de terra? Eu tenho que ficar combinado com você. Eu te dou uma vaca média. Não vou te dar uma vaca velha, nem ruim, nem morrendo. Eu errei. Eu achei que não ia dar nenhum problema. Você faz desse jeito?”
 
Depois explica o motivo da oferta. “Eu não quero mandar a prefeitura vir aqui. O juiz vai intimar vocês. Vai virar um rebu danado e eu não quero. Eu não sou doido de mandar fazer uma estrada se eu não tivesse com tudo certo... Eu tô querendo dar uma vaca do meu bolso para você esquecer, acabar com esse negócio”.
 
Em outro trecho, ele se recusa a reconstruir a cerca arrancada e oferece dinheiro. “Eu não vou refazer não. Para que essa briga? Você me fala o preço em dinheiro que você quer, e eu te pago. Se você me falar que quer dinheiro, eu te arrumo, R$ 1 mil, R$ 1,5 mil. Para que esse negócio de ação judicial?”.
 
Ao final, quando questionado pelos danos causados, o vereador diz que fará a reparação com a doação de mudas por parte da própria prefeitura. “Eu estou ajeitando para você. Você vai ficar satisfeito. Eu vou ter problemas, já estou me preparando. Porque os outros (sitiantes) também vão reclamar (...) Eu te arrumo as 500 mudas que prometi e você planta. O Horto Municipal distribui mesmo”.
 
O sitiante disse que a área invadida corresponde a pouco mais de 800 metros quadrados. “Eu só quero o que é meu por direito. Não acho justo eles virem aqui, invadirem minhas terras, destruírem as coisas e ficar por isso mesmo”. 
 
Outro lado
O vereador e candidato a deputado estadual Laercinho confirmou que realmente fez as ofertas. “Eu quis ajudar. Queria que a obra terminasse logo. Fiz de boa-fé”. Ele disse não ver irregularidade em sua conduta. “Na verdade, a obra não é irregular. Não houve invasão”. (leia mais ao lado)
 
O secretário municipal de Serviços, Ismar Tavares, foi procurado durante dois dias pela reportagem, mas não atendeu. Ontem os trabalhadores do local receberam ordem para recolocar a cerca no lugar original.