(Análise literária e histórica da mais famosa obra do renomado escritor Oscar Wilde, publicada pela primeira vez a 20 de junho de 1890)
A elegância e a decadência da Inglaterra no período vitoriano do século XIX estão descritas – e muito bem descritas – no romance O Retrato de Dorian Gray por Oscar Wilde (1854-1900), publicado pela primeira vez em 1890. E mais: ao lado da elegância, aparecem claramente a sofisticação e a nobreza, os salões nobres, os clubes e os restaurantes dos mais sofisticados; paralelamente a um outro mundo: o mundo cão, da decadência, da vida mundana, de ruas escuras, arcadas lúgubres e sombrias e casas sórdidas, além dos bordéis e dos teatros de baixa categoria da zona portuária de Londres.
O Retrato de Dorian Gray, escrito pelo “filho de uma família de aristocratas irlandeses rezoavelmente colocados”, como destacou Ricardo Lísias na Introdução de uma das truduções desta obra (2009), é, indiscutivelmente, um dos melhores livros estrangeiros que tive o privilégio de ler em todos os meus 64 anos de vida. Um livro encantador. Um livro atraente. Um livro que quanto mais lia mais me encantava, literária e historicamente, e cuja leitura me foi possível concluir no final da tarde de 31/03/2014, após três meses de pesquisas a pedido e sob orientação do meu Professor de História da Arte na FMU/SP, André Oliva Teixeira Mendes. Uma pesquisa que começou em Ashburn Village, na Virgínia, EUA, em janeiro, e que incluiu duas versões do mesmo livro e três filmes que assisti via Internet, dentro do avião da United Airlines que me trouxe de volta ao Brasil e no Museu de Arte Sacra de São Paulo.
Literariamente, porque a obra é repleta de detalhes, ricos detalhes, e a linguagem do autor é igualmente rica, bela, bem cuidada e elegante, ainda que a versão que li tenha sido traduzida do inglês para o português, de Portugal; mas, qual obra mal escrita no idioma de William Shakespeare (1564-1616) ficaria bem redigida, atraente e comovente – cheia de atrativos, enfim – quando traduzida para o português? Ainda mais se o tradutor foi um profissional de primeira categoria?
Historicamente, porque em O Retrato de Dorian Gray o autor nos mostra uma Londres tal como era nos tempos vitorianos, no século XIX (ou pelo menos tal como a imaginamos, quase dois séculos depois): escura, fria e sombria na maior parte do ano, aristocrática, mas igualmente rica, charmosa e adorável como toda a sociedade londrina, ao mesmo tempo em que mostrava a tudo e a todos os seus mais clássicos e famosos defeitos: uma elite fútil, pouco (ou nada) apegada ao trabalho (trabalho duro, então, nem pensar), que vivia a comer, beber, caçar, jogar e se divertir em mansões, campos, restaurantes e clubes dos mais elegantes ou, então e ao mesmo tempo, em casas, teatros e botecos decadentes. Uma sociedade decadente, sem dúvida.
A trajetória de Oscar Wilde
Oscar Wilde era apenas o nome pelo qual ficou conhecido e famoso o cidadão Oscar Fingal O’Flahertie Wills, que a história nos mostra ter sido um cidadão muito bem-criado. Ele veio ao mundo em Dublin, a 16 de Outubro de 1854. Também em Dublin começou sua trajetória rica e bem formada, porque estudou na Faculdade de Trinity. Em seguida – e dando sequência à formação aristocrática que recebeu – passou a estudar na Faculdade de Magdalen, em Oxford, onde conheceu a longa fase de glória pessoal e profissional: foi premiado em função do poema Ravena, de 1874.
Terminados os estudos, Wilde foi para uma das mais sonhadas capitais do mundo: Londres. Na época ele já possuia talento e encanto pessoal. Tanto que em muito pouco tempo viria a se destacar no mundo literário local: primeiro como ensaísta e em seguida como poeta. Era tão genioso que, após a publicação do primeiro livro de poesia – Poemas, em 1881 – viajou para uma das ex-colonias da Inglaterra: os Estados Unidos.
Nada a declarar
Chegando aos Estados Unidos, onde foi para uma série de conferências, teve a coragem de declarar a aduana de New York, sem cerimônia alguma e com a característica arrogância dos cidadãos daquela que foi uma das maiores e mais poderosas metrópoles: “Nada tenho a declarar, exceto o meu gênio”.
Wilde ficou pouco tempo na América do Norte, até porque não aceitava que naquele país, que um dia fora subordinado ao seu país de origem e subestimado pela Grã-Bretanha poderia existir uma cidade tão promissora quando aquela. E logo viajou para outra capital digna do prestígio de Londres: Paris. Ficou por dois anos na capital francesa.
Na volta à Inglaterra, uma surpresa: Gray se apaixonou – ou pelo menos mostrou-se apaixonado – por uma jovem tão aristocrática quanto ele e casou-se a 29/5/1884 com Constance Lloyd. Ela pertencia a uma das famílias que tinha sido das mais influentes da França e com ela teve dois filhos: Cyril e Vyvyan (que, inicialmente, receberam o sobrenome do pai, mas depois foram rebatizados como Holand).
Direcionando a vida profissional para o jornalismo, Wilde dirigiu, em 1887 e 1889, uma revista das mais influentes do mundo inglês: a feminina The Woman's World. E foi nestes anos que ele produziu os contos que veio a publicar em O Príncipe Feliz, os dois volumes de crônicas e histórias – O Crime de Lord Arthur Saville e Uma Casa de Romãs –, assim como o único romance: O Retrato de Dorian Gray, tema da presente análise.
Wilde e o dantismo
Oscar Wilde encarnou com perfeição o estilo dândi (próprio dos homens de bom gosto e fantástico senso estético, mas que não necessariamente pertencia à nobreza) e produziu mais, inclusive uma peça teatral denominada O Leque de Lady Windermere, encenada em 1892. Uma outra, intitulada Uma Mulher sem Importância, teve encenação concretizada em 1893. E uma terceira, com o nome de Um Marido Ideal, estreou dois anos após o texto de 1893.
Eclético, Wilde escrevia também em francês e assim produziu Salomé, montada em Paris e estrelada pela atriz Sarah Bernhard (1844-1923, considerada, na época, “a mais famosa atriz da história do mundo”). Este mesmo texto recebeu posteriormente uma versão em inglês de autoria de Lord Alfred Douglas. O relacionamento entre Wilde e o jovem e aristocrata Douglas revoltou o Marquês de Queenberry. Ele era pai de Douglas e insultou Oscar em público por desaprovar a “estreita amizade” do filho com Wilde. Tal insulto deu início a uma série de acontecimentos que culminaram com a condenação de Wilde por suspeita de ser homossexual.
A condenação representou a desgraça de Oscar Wilde, porque, consequentemente, o escritor passou duas temporadas numa colónia penal em Reading. Mas ele não se entregou. Pelo contrário: aproveitou esse isolamento para escrever longa carta a Lord Alfred, que veio a ser publicada em parte em 1905 sob o título De Profundis. Wilde saiu da prisão arruinado, com a saúde bem debilitada e não encontrou outra saída: sem o apoio da mulher e dos filhos, passou a viver da caridade dos amigos que ainda tinha na Itália e na França. E foi exatamente em território francês que escreveu a famosa A Balada do Presídio de Reading, datada de 1898 e que teve como base a experiência da prisão. No tempo em que ficou exilado, Oscar Wilde preferiu ser identificado como Sebastien Melmoth. E assim ele terminou a vida em Paris, em 1900, no mais profundo esquecimento e ostracismo.
No ostracismo para sempre? Não!
Assim – pobre, abandonado e esquecido –, Oscar Wilde estava condenado a jamais ser lembrado. Mas foi. E isso se deveu à excelência dos textos que nos deixou. Em especial O Retrato de Dorian Gray. Esta obra é tida por todos – ou pelo menos por quase todos que a analisaram – como uma autobiografia do autor.
Em 1890, quando o autor a tornou pública nas páginas do Lippuicott’s Magazine, Wilde era tido como um dos nomes mais importantes a atuar nas letras inglesas. Mesmo assim, a publicação recebeu críticas negativas. Severas. Injustas, na maioria das vezes. Nenhuma delas, entretanto, deixou de ser respondida por ele. Por vezes ele era irônico; noutras vezes demonstrava irritação.
Ainda que não tenha agradado a todos os críticos, O Retrato de Dorian Gray foi bem recebido por artistas de todas as partes do mundo e passou a ser um guia estético dos adeptos do decadentismo (sensibilidade estética ocorrida no fim do século XIX, ou seja, exatamente na época em que viveu e escreveu Oscar Wilde).
Para um boa parte dos analistas de O Retrato de Dorian Gray, o estilo decadentista é um fenômeno natural, uma vez que o livro apresenta, de cara, um manifesto que resumia a posição do autor diante da nova arte. “Trata-se, portanto, de um romance programaticamente concebido para nortear a produção de seu tempo”, como escreveu Ricardo Lísias na página 11 da Introdução da versão em português do Brasil editada em 2009 pela Editora Hedra.
Para Lísias, “cabe procurar compreender a utilidade de uma tradução que utiliza uma linguagem antiquada, de vocabulário castiço e raro, feita, seguramente, impulsionada por critérios estéticos que, há muito, já não vigoram”. Diante disso, e seguindo nesta análise, minha tendência é concordar com Ricardo Lísias. Por quê(?), eu me pergunto, lembrando as lições recebidas de meus Professores e Professoras ao longo deste quase ano e meio de estudos de Licenciatura em História na FMU. E a explicação é fácil: “Há, obviamente, o interesse documental” (como destacou Lísias). Exatamente isso. Até porque que outra maneira teríamos de conhecer os detalhes que Oscar Wilde nos apresenta nas páginas de O Retrato de Dorian Gray? Quem mais nos detalharia – e em minúcias – cenas que só Wilde nos detalhou e que nos permitiu conhecer como eram e como viviam os aristocratas do século XIX, na Inglaterra?
Três protagonistas
Nesta bem – muito bem, melhor dizendo – engendrada trama, que mais me parece uma auto-biografia, destacam-se três figuras ou três protagonistas: Dorian Gray (o belo, o elegante, o dandi, o narcisista, o eternamente jovem…), o competente pintor Basil Hallward (que fez o retrato – muito bem feito, por sinal – de Dorian Gray, se apaixonou perdidamente por ele e jamais aceitou tê-lo perdido para outro ou outra pessoa) e o Lorde Harry Wotton (que pousa de mentor intelectual de Gray, tenta de todas as maneiras dominá-lo em todos os sentidos, mas queria era ser o próprio, por conta, principalmente, da beleza de Dorian, que parecia eterna). Dorian Gray, inegavelmente rico, alterna, ao longo do romance, momentos de bom humor e inteligência, tenta se apresentar como um bom moço, mas não é só isso tudo. É muito mais. É, ao mesmo tempo, uma figura perversa, má e cruel, gentil quando a situação assim exige, amoroso ou rude, romantico e por vezes – muitas vezes – depressivo. Tudo isso ao mesmo tempo. Ou melhor: tudo ao seu tempo. Inegavelmente, Dorian Gray cometeu um grande equívoco (ou teria sido um grande erro?). Foi quando disse que venderia a alma ao diabo se isso fosse preciso para manter aquela beleza inacreditável que ele via no retrato pintado pelo amigo Basil.Além de inacreditável, era uma beleza indescritível. Uma pintura – quem sabe – mais real do que o real em pessoa. Certamente foi por conta disso que Dorian não mediu as consequências do pensamento que teve e as palavras que disse. Certamente.Por que ele teria feito isso? Será que ele foi ingenuo a ponto de não acreditar na possiblidade do seu desejo se tornar realidade?Uma questão é certa: Dorian Gray jamais poderia imaginar tudo o que aconteceria em seguida. Nem que ele se apaixonaria pela atriz Sibyl Vane (“sagrada, tão tímida e tão meiga”, segundo palavras que Oscar Wilde colocou na boca de Gray) e que se matou pela desilusão que sentiu diante da reação do príncipe encantado; nem que seria obrigado (obrigado, mesmo?) a matar o amigo Basil Hallward a sangue frio; nem que teria de chantagear uma outra pessoa (o químico Alan Campbell), que, ao que tudo indica, sabia demais e por isso cometera suicídio “por sua livre vontade”, para dar sumiço ao corpo do pintor assassinado no funesto quarto que serviu de esconderijo para o retrato; nem que teria de fugir como um animal amedrontado do marinheiro James Vane, o irmão da atriz, porque tal sujeito estava decidido a matá-lo e assim vingar a morte da irmã. Sabendo ou não dessas consequências e desses fatos, o certo é que Dorian era um atormentado no período que antecedeu sua morte – trágica morte. E não o era por conta das mortes e infelicidades que causara a toda essa gente, entre as quais estavam ainda empregados, convivas, amantes – jovens amantes ou balsaqueanas – do sexo feminino e do sexo masculino, negociantes e políticos, damas da alta sociedade, etc. Tudo isso se deu porque Dorian Gray (ou teria sido Oscar Wilde?) era vaidoso, curioso e hipócrita. Era isso mesmo? Ou por que ele não queria renunciar a boa vida de jovem rico, inteligente, culto, cheio de amigos (bons, sinceros ou falsos amigos?), muitos ricos como ele, outros tão decadentes quanto a Inglaterra vitoriana. Alguns chegaram a levantar a hipótese de que Dorian “usara com hipocrisia a máscara da bondade”, como Oscar Wilde escreveu na página 149, a última da versão publicada pela editora que bancou a tradução do inglês para o português de Portugal. Seria isso mesmo ou quase tudo isso? Ou o objetivo de Oscar Wilde ao escrever O Retrato de Dorian Gray teria sido – além de retratar a derrocada da Europa, capitaneada pela Grã-Bretanha e pela França pós revolução industrial – entrar para a história como um romancista de primeira linha, tal como fez Shakespeare em Romeu e Julieta, a tragédia escrita entre 1591 e 1595, no início da carreira literária do famoso poeta e dramaturgo inglês que depois viria a ser chamado de “o maior escritor do idioma inglês” e “o mais influente dramaturgo que o mundo conheceu em todos os tempos”? Ser lembrado como Shakespeare não foi possível para Oscar Wilde. Nem de longe. Também não é possível afirmar que essa era a intenção dele. Assim como não é fora de propósito considerar que ele trilhou – ou pelo menos tentou trilhar – o mesmo caminho. O caminho de Shakespeare e de outros protagonistas famosos e históricos que ele citou ao longo das 149 páginas de O Retrato de Dorian Gray: Gautier (1811-1872, escritor, poeta, jornalista e crítico literário francês), Platão (428-348 a.C., filósofo e matemático grego), Páris (filho do rei Priamo de Tróia), Adónis (jovem de grande beleza, tal como o personagem Dorian Gray), Adriano (76-138 d.C., imperador romano de 117 a 138), Montaigne (1533-1592, cético francês considerado o inventor do ensaio pessoal), Winckelmann (1717-1768, alemão, historiador de arte e arqueólogo), Dante (1265-1321, poeta florentino e autor de La Divina Commedia), Schubert (1797-1828, compositor austríaco do fim da era clássica), Chopin (1810-1849, pianista como Gray, polaco radicado na França), Beethoven (1770-1827, compositor alemão do período de transição entre o Classicismo e o Romantismo), Bernal Dias (1492-1585, cronista espanhol), Córtez (1485-1547, espanhol que ficou famoso pelas monstruosas conquistas na América), Demócrito (460-370 a.C., filósofo greco pré-socrático), Marco Polo (1254-1324, mercador, embaixador e explorador nascido na República de Veneza) e até Maomé (570-632, líder religioso e político árabe, considerado pela religião islâmica o mais recente e último profeta do Deus de Abraão). Todos eles – e outros tantos – certamente tiveram influências na vida e na produção literária de Oscar Wilde. Especialmente no texto que resultou na obra O Retrato de Dorian Gray, publicada em quase todos os idiomas e países e que serviu de roteiro para três filmes.
Claudio Amaral é Jornalista desde 1º./5/1968 e Mestre em Jornalismo para Editores pelo IICS-Turma de 2003. Trabalhou, entre outros, no Comércio da Franca em 2005/2006. Pesquisou a vida e a obra de Oscar Wilde, especialmente O Retrato de Dorian Gray, a pedido e sob orientação do Professor André Oliva Teixeira Mendes, como trabalho da disciplina de História da Arte no 3º. semestre de Licenciatura em História na FMU/SP, onde estuda desde 1º./2/2013. Recebeu nota máxima ao final do semestre, em maio de 2014.
REFERÊNCIAS BIOGRÁFICAS
WILDE, Oscar – O retrato de Dorian Gray. Lisboa: Colecção Novis-Biblioteca Visão – 7
WILDE, Oscar – O retrato de Dorian Gray. São Paulo: Hedra, 2009.