A dupla aparece em foto de arquivo no início da carreira, em 1982
Divino e Luizinho nasceram na zona rural de Claraval (MG) e se mudaram ainda meninos para Franca em busca de uma vida melhor. Precisavam arrumar um serviço para ajudar no sustento da família. No distante ano de 1978, se conheceram no chão da fábrica de calçados Puma. Divino tinha 12 anos. O amigo, 14. Trabalhar não era o que eles mais gostavam. Não demorou para que descobrissem um dom menos cansativo. Passaram a cantar. Se apresentavam em bares, casas noturnas e festas. Cachê não existia. Cantavam em troca de comida e bebida. Ainda meninos, chegaram a ser deixados para trás em um “show” pelo contratante. O nome da dupla não ajudava muito: Zé Divino e Felizardo.
Quatro anos depois de se conhecer, no ano de 1982, a dupla foi rebatizada. Por sugestão do compositor Domiciano passaram a se apresentar como Rionegro & Solimões. “Achei o nome bonito, mas não sabia que Solimões era um rio. Pensei que fosse só limões”, conta o baixinho, que queria ser pivô do time de basquete de Franca e que se define com muita humildade como a “maior potência sexual do planeta”. A carreira não decolava. Os cantores tinham que conciliar as apresentações com a produção de calçados. “Passamos por várias fábricas. Para onde ia, arrastava o Solimões. Sempre trabalhamos juntos.”
Em 1986, os dois resolveram largar de vez a fábrica. Fazer sapatos não era com eles. “Vida boa é ficar à toa”, conta Solimões. Passaram a se dedicar à musica, participaram de festivais e cantaram na região. Os fãs foram aumentando. Em 89, lançaram o primeiro disco que ganhou o nome de Samba e Cachaça. A música Laço da Paixão invadiu as rádios. Não é conversa de mentiroso, mas o primeiro show após o disco foi em um dia 1º de abril. “Foi uma coincidência. Sem que tivéssemos planejado, a data sempre esteve presente em nossa carreira. Nosso primeiro DVD também foi gravado no dia da mentira”, conta Rionegro.
Dupla
Divino e Luizinho oficializaram a parceria e formaram uma dupla de verdade. Escreveram o nome de Rionegro & Solimões na história da música sertaneja. No último dia 1º, completaram 25 anos de carreira. “Muitos fatores precisam estar em sintonia para a parceria dar certo e ficar tanto tempo junto. O respeito e confiança que temos um pelo outro é a base de tudo”, resume Rionegro. As bodas de prata foram alcançadas com números expressivos: São mais de 2,5 mil shows, 18 álbuns, dois DVDs, músicas em novelas no horário nobre da Globo e pelo menos 80 apresentações por ano. São acompanhados por uma equipe de 26 pessoas, uma carreta e um ônibus.
Os meninos que saíram da pequena Claraval chegaram aos Estados Unidos e se apresentaram em Nova York. “No Paraguai, nóis já foi também (sic)”, diz Solimões.
Nem sempre foi assim. Na época de estreantes, não tinha plateia, muito menos pagamento. “O cara perguntava o quanto a gente cobrava. Falava que não era nada: ‘Nóis vai lá, enche a cara de cachaça e come carne na sua festa’. Muitos começaram a dar um dinheiro pra gente. Achamos aquilo interessante”, relembra Solimões.
Certa vez, a dupla de meninos em início de carreira foi convidada a cantar para “uns diplomados” em uma chácara no Recanto Fortuna. “Eles bebiam e falavam: ‘enquanto nóis janta, os caipira canta. O cara que nos levou ficou tonto demais e largou a gente lá. O povo foi indo embora e ninguém quis dar carona pra gente. Falavam que o carro estava cheio, mas saíam sozinhos. Nóis era menino e rasgou a pé pra Franca (sic). Viemos cantando na poeira”, completa Solimões.
A dupla não se esquece de outra passagem marcante. Famosos na região, expandiram as apresentações para outros Estados. Certa vez, foram cantar em uma cidade no interior de Minas Gerais. Solimões jogou a toalha para o público no fim do show. “Nóis já estava se achando (sic). Fiquei empolgado. Encheram de segurança. Entre os seguranças e a plateia tinha uns oito metro separando. O povo não quis é chegar perto. Joguei a toalhinha e ela foi fazendo assim igual a uma folha seca quando cai. De repente, ela estendeu lá no chão. Ninguém pegou. O segurança, de dó de mim, foi lá, catou ela e colocou no bolso.”
O primeiro sucesso nacional veio com o CD De São Paulo a Belém, lançado em 1996. As músicas A gente se entrega e Frio da madrugada também estouraram. Mas, estouro mesmo foi o hit Peão Apaixonado, lançado no ano seguinte e que foi trilha da novela Laços de Família. Depois, emplacaram Na Sola da Bota na novela América.
Em setembro de 1999, Rionegro e Solimões foram contratados para cantar na Exposição Agropecuária de Brasília. No trajeto entre o hotel e o local do show, o trânsito estava travado. Só conseguiram chegar ao palco porque duas viaturas da polícia foram escoltá-los. Foram obrigados a trafegar pelo acostamento e na contramão. “A van com a nossa banda parou a um quilômetro de distância e os músicos tiveram que chegar a pé. Foi um negócio de doido”, diz Rionegro, que perguntou ao motorista o motivo do engarrafamento. “É por causa do show de vocês”, respondeu ele. “Neste dia, falei: ‘agora, acho que o trem foi. Acho que conseguimos atingir nosso objetivo’.” Segundo a organização, tinha mais de cem mil pessoas. Foi um recorde de público. “Estávamos batalhando há dez anos e fizemos sucesso na capital do País.” Quatro anos antes, eles haviam juntado pouco mais de 80 pessoas em Brasília. “Demos autógrafo e tiramos fotos com todo mundo que estava lá”, recorda Solimões.