07 de julho de 2026

Vidas improvisadas


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Comércio acompanha a rotina das 101 detentas da Cadeia Feminina do Guanabara
O contato com o interior da cadeia feminina do Guanabara pode causar estranheza a um visitante de primeira viagem. O som alto de funk, os olhares desconfiados, curiosos - e por vezes hostis - das detentas e a mobilidade com que “passeiam” pelos corredores que separam suas celas do pátio de convivência dão a impressão de que o local é, na verdade, uma espécie de vila improvisada. As roupas, que elas mesmas lavam num tanque de pedra, são dependuradas nos vãos das grades, formando uma “decoração” peculiar. As paredes das celas são repletas de mensagens escritas com batom, recortes de revista, jornais e fotos da família. Para tentar garantir o mínimo de privacidade, portas são improvisadas com lençóis. Inclusive a do banheiro. O cheiro forte do tabaco confere o toque final a esse cenário recluso , observado pelo Comércio durante a manhã do dia 15 de fevereiro, um sábado. Na data, a reportagem acompanhou os trabalhos da Pastoral Carcerária com a intenção de ver de perto a rotina das 101 detentas do Guanabara ao longo de um dia. 
 
A carência ficou evidente durante a visita. Após o primeiro contato, quando a reserva e o receio foram dando lugar à curiosidade, pedidos de todo tipo começaram a surgir: iam de doação de linha de crochê a advogado para revisão de processo. Uma delas pediu um abraço. 
 
A rotina monótona é outro aspecto marcante naquele recinto que abriga em sua maioria mulheres na faixa dos 20, 30 anos. “Aqui não tem muita coisa pra fazer. Tem gente que faz um crochê, conversa... Mas prefiro ficar dentro da minha cela para não me envolver em briga ou acabar fazendo coisas erradas”, disse uma das internas. “A gente levanta às nove, toma café e vai fazer nossas atividades: ‘pagar o pão’ e recolher as cartas (que vão para os familiares)”, completou. Com “pagar o pão” ela se refere aos trabalhos realizados na cadeia, como faxina e auxílio na enfermaria, para conseguir remissão da pena. 
 
O delegado responsável pela cadeia, Eduardo Bonfim, afirma que a rotina nas celas e no pátio poderia ser mais agitada. “Antigamente, fábricas de sapato pagavam para que elas costurassem, mas parece que elas não gostam de produzir. As empresas acabaram desistindo”, disse o delegado sobre a falta de atividades na prisão. Hoje, a Unifran (Universidade de Franca) presta serviço psicológico para as detentas; a Faculdade de Direito de Franca, auxílio jurídico e as igrejas fazem pregações. 
 
Reclusas
O toque de recolher acontece sempre às seis da tarde, quando as detentas são levadas para suas celas. Elas ficam em espaços que medem quatro metros quadrados e podem abrigar até nove mulheres. 
 
Uma das celas foi adaptada para servir como capela. O cômodo é relativamente comprido e nele dois freezeres dividem espaço com um altar improvisado. Há diversas imagens de Nossa Senhora sobre um suporte fixado na parede. “O que resta é se apegar a Deus. O que quero é sair, poder cuidar de novo do meu filho e trabalhar. Sei que lá de fora é mais difícil que aqui dentro, porque aqui não tem ninguém pra te julgar, mas rezo para conseguir uma vida lá fora e nunca mais ter que voltar”, disse uma das mulheres que passaram pelo círculo de oração da Pastoral.
 
A cadeia
A cadeia feminina do Guanabara tem capacidade para 148 presas. Abriga hoje 101. Os motivos mais comuns que as levaram para atrás das grades são tráfico de drogas, furtos e homicídios. A grande maioria se envolveu com o crime através dos parceiros. “Normalmente eles vão presos e elas, por terem contatos e dívidas - inclusive com advogados - retomam os ‘negócios’ do companheiro e acabam detidas”, disse o delegado Eduardo Bonfim.
 
A população carcerária do Estado de São Paulo é majoritariamente masculina. Até fevereiro deste ano, a Secretaria de Administração Penitenciária e a Secretaria da Segurança Pública contabilizavam juntas 213.458 detentos, sendo 200.361 homens e 13.097 mulheres. A Cadeia Feminina do Guanabara pertence à Secretaria da Segurança Pública e recebe detentas de 24 cidades da região.

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