Mais uma família acusa a Rede Pública de Saúde de Franca de descaso e negligência. A diarista Francisca Firmina da Silva, 47, morreu no início da tarde da última terça-feira, segundo familiares, 30 minutos após ter alta do Pronto-socorro Municipal “Álvaro Azzuz”. Francisca deixa marido e quatro filhos. Dois deles são menores. Inconformada, a família registrou boletim de ocorrência, ontem, e pretende processar a Prefeitura.
Francisca, que era hipertensa, começou a se sentir mal na manhã de terça-feira. Queixando-se de falta de ar e dores abdominais, foi levada ao PS pela amiga e vizinha Maria de Lourdes da Silva. “Cheguei na casa dela às sete da manhã e ela já estava com aquela falta de ar. Fomos para o Pronto-socorro e fizemos o possível para passar ela na frente. A pressão dela estava alta e o médico pediu um raio-x, suspeitando pneumonia.”
Fraca e com fortes dores, Francisca chegou ao PS e esperou o exame em uma cadeira de rodas. Em seguida retornou ao consultório médico. “Voltamos e o médico já tinha ido embora. Passamos por outro. Ele a atendeu, disse que o pulmão estava limpinho e ela não tinha nada. Receitou apenas os remédios para tomar em casa”, disse Maria.
Preocupada com o estado da diarista, Maria questionou se Francisca não precisava ser internada, mas o profissional teria garantido que não. Em uma receita, prescreveu como medicação um antialérgico e um xarope. Segundo os familiares, nenhum exame complementar foi solicitado pelos médicos. “Eu já fui preparada para ficar de companhia com ela. Não achava que a gente viria embora, mas o médico não deu atenção nenhuma. Foi muito rápido o atendimento. Entramos, ele olhou o raio-x, fez a receita, liberou e já chamou outro paciente.”
Obedecendo as ordens médicas, Francisca retornou para casa, mas, segundo familiares, “do mesmo jeito que saiu”. Ao chegar, sentou-se no sofá, tentou se alimentar e logo começou a se debater. Em poucos minutos, morreu. “Fui para a minha casa, mas logo o filho mais novo dela estava me gritando. Fazia só 30 minutos que a gente tinha chegado. Ela estava se debatendo, pedindo para tirar tudo de cima dela e procurando ar.”
Assustados, os filhos de Francisca acionaram o Samu (Serviço Móvel de Urgência), que logo chegou e tentou reanimar a diarista, mas já era tarde. “Eles chegaram e pediram para todo mundo sair da sala. Depois abriram a porta pedindo para um familiar entrar. Entrei feliz, achando que tinham conseguido reanimar a minha mãe, mas a notícia deles foi outra. Minha mãe já estava morta”, disse a filha mais velha de Francisca, Natália Aparecida da Silva.
Segundo o atestado de óbito emitido pelo IML (Instituto Médico Legal), Francisca morreu devido a uma falência cardíaca, cardiopatia hipertensiva e hipertensão arterial sistêmica.
‘Não é justo’
A família registrou boletim de ocorrência no 5º Distrito Policial e garante que irá processar a Prefeitura. “Isso não é justo. A minha mãe deixou um filho de 10 anos, deixou a minha irmã de 16, meu irmão de 18 e me deixou. Ela tinha 47 anos e uma vida toda pela frente. Não é certo brincar com a saúde pública desse jeito. Vou correr atrás. Sei que não vai trazer ela de volta, mas vou tentar para que outras famílias não sofram como a minha está sofrendo”, disse Natália.
Francisca foi velada no Centro Comunitário Santa Efigênia e enterrada, na tarde da última quarta-feira, no cemitério Parque Jardim das Oliveiras.
Outro lado
O Comércio entrou em contato com a secretária de Saúde, Rosane Moscardini, mas ela pediu para que o contato fosse feito com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura. Como resposta, uma nota foi encaminhada informando que “a Secretaria de Saúde já abriu procedimento interno para apurar os atendimentos à paciente”.
Ontem, na Câmara, Rosane reconheceu que há algo “muito grave” acontecendo na Saúde em Franca.