Sempre houve vozes discordantes. E sempre foram criticadas. Preconizar mudanças no modo de vestir, de viver, de olhar a vida, de resolver problemas do cotidiano, de avaliar situações sempre provocou e ainda provoca mal estar e desconforto no próximo. Imagino como teriam reagido os membros daquele grupo social quando o descobridor do fogo chegou na caverna fazendo labareda com facilidade, ao invés de bater pedra contra pedra. (Fosse hoje seria, no mínimo, vereador eleito com vantagem de votos.)
Quando o liquidificador apareceu no mercado as donas de casa ficaram fascinadas. Naquelas priscas eras era algo inusitado, raro, caro e conferia ao dono ponto a mais no status. Exagero? Garanto que não. Aí começou o folclore: como triturava alimentos, misturava tudo. Subitamente passou a ser responsável por intoxicações alimentares supostamente provocadas pela amálgama de leite e manga, a exemplo. Quando se incorporou à paisagem da cozinha, definiu sua utilidade, passou a ser fundamental e ficou invisível.
Situações semelhantes são observadas em todas as áreas da atividade humana, tanto no âmbito da moda, quanto na avaliação de comportamento humano. Exagero? Garanto que não é... Lá um dia Coco Chanel arrancou o espartilho das mulheres. Substituiu incômodas saias e estruturas rígidas por calças compridas; babados e barbatanas por diáfanas rendas e confortáveis roupas de praia e de equitação. Um horror!, disseram. Reflexo do seu exterior, a mulher internamente também mudou. Mais confortável para ir à luta e trabalhar em atividades antes avaliadas incompatíveis com sua feminilidade — some-se a isso a precariedade de mão de obra masculina na época — a mulher definiu seu novo papel no mundo. Século XXI, a mulher teoricamente não possuiu barreiras para desempenhar qualquer atividade profissional. O filme Gravidade, indicado para o Oscar 2014, tem como figura central uma mulher astronauta-chefe da expedição: quem imaginaria isso em 1960?
Mudanças incomodam. Exagero? Garanto que não... Independente de sexo, idade, posição social, toda vez que alguém discorda, ou se mostra em desarmonia com a ordem vigente, ou toma atitude incompatível com a da maioria e declara o desagrado em público... é punido, ou severamente advertido. Toda vez que alguém inova, modifica, transforma, altera, faz diferente dos outros... é advertido, ou severamente punido. Nosso entorno está cheio de exemplos de mudanças. Para nossa sorte, algumas vingaram: comunicação, o portal do GCN, modo de vestir, comportamento, eletro-domésticos — ferro de passar, micro-ondas —, indústria farmacêutica e automobilística, cardápios, medicina, e até a ética da justiça. Para nosso azar, outras não: fruticas de comadres e compadres, raivas, desavenças, inveja, mentiras, solapamento, perdão para safados. Para nossa sorte, algumas foram abortadas: crescimento de benesses políticas. Para nosso azar, inúmeras foram aceitas: tolerância com a futilidade e com a arbitrariedade em diversas e diferentes ocasiões, entre as quais o BBB é exemplo maior.
Mudança é responsável pelo progresso, em contrapartida não saberia dizer o que causa maior desconforto: se a mudança em si que desacomoda; se seus efeitos em parte ou no total da circunstância; se seu próprio agente provocador. Todavia, o que posso garantir — eu que sou da geração que empreendeu luta para mudanças de uso e costumes — é que estranho muito o mundo hoje: telefones fazem parte da decoração da mesa onde pessoas se reúnem; gravidez é sinônimo de desconforto; educar é concordar com tudo que o educando quer; regras e limites na convivência doméstica são empecilhos à liberdade a que o ser humano tem direito; bandeiras — ex-símbolos cívicos — são matéria-prima de camisetas e biquínis, e observar que expressões como obrigado, desculpe, com licença e por favor foram banidas do vocabulário infanto-juvenil. Saudade do tempo antes do liquidificador.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br