Depois de surpreender o mercado ao fechar 2013 acima do esperado, em 5,91%, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial, deve continuar preocupante em 2014. O cenário para este ano é de diminuição das medidas de desoneração, o que deve ter reflexo nos preços, e de eleições presidenciais, quando é comum que governos federal e estaduais promovam mais gastos públicos, pressionando os preços. As projeções mensais para o IPCA ao longo de 2014, que constam da última pesquisa Focus, feita pelo Banco Central com analistas de mercado, indicam que a inflação vai continuar em alta e voltará a beirar o teto da margem de tolerância (6,5%) no segundo semestre.
No auge da disputa eleitoral, portanto, é possível que a economia viva momento semelhante ao de junho do ano passado, quando manifestações tomaram as ruas do País em meio ao reajuste das tarifas de transporte. Com a inflação em 6,7% corroendo o poder de compra da população, a insatisfação pode se manifestar de forma concreta. Como estas previsões foram feitas antes da divulgação do surpreendente IPCA de 2013, há quem acredite que a taxa poderá superar os números esperados pelo mercado. O Boletim Focus desta segunda-feira, 13, deverá balizar os prognósticos para o ano.
A única certeza é a de que o governo já não tem mais munição para impedir uma explosão inflacionária neste ano eleitoral. A presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, está bancando os prejuízos crescentes da Petrobras para impedir um aumento dos combustíveis — leia-se gasolina e diesel — que amenize os apuros da estatal. A empresa já está conseguindo convencer o ministro Guido Mantega da necessidade de novos reajustes para fazer frente à defasagem entre o que a Petrobras paga pelo combustível lá fora e o que é cobrado nas bombas dos postos. Até o plano de investimentos da empresa está sendo comprometido.
Um aumento no preço da gasolina e do diesel deve causar um efeito dominó em todos os setores produtivos do País. Como praticamente toda a produção industrial ou agrícola é transportada por meio terrestre, um reajuste vai “contaminar” preços e serviços, elevando mais ainda a inflação. Deve-se ressaltar ainda que não há intenção do Planalto em conceder novas desonerações para estimular o consumo e consequentemente pressionar o IPCA para baixo. Esta medida já se mostrou improdutiva no ano passado.
Assim, Dilma vê-se de mãos atadas às vésperas da campanha eleitoral. Sem bala na agulha (a esta altura, falta até um simples revólver) para abater este dragão que volta a rondar as contas (e os bolsos) dos brasileiros, a presidente-candidata fica à mercê da oposição que pretende colocar em primeiro plano a discussão da política econômica da última década (principalmente no atual mandato) para derrubar a hoje favorita no pleito de outubro. Resta saber o que Guido Mantega e equipe farão no sentido de tornar verdadeiro o discurso otimista da presidente segundo o qual 2014 será melhor do que foi 2013. Os números já estão mostrando o contrário.