O matuto adentrou a repartição policial e foi logo dizendo:
- Quero falar com o doutor delegado.
- Qual o assunto? - perguntou o escrivão.
- É particular moço.
- Para falar com o delegado tem que falar o assunto, senão não fala.
- Ah, é assim? Pois então vou falar com o promotor.
- Pois que vá - respondeu secamente o policial.
Depois de meia hora na sala de espera da Promotoria, ouviu da solicita servidora:
- Pois não, senhor, em que posso ajudá-lo?
- Moça, eu quero falar com o promotor.
- Mas hoje e segunda-feira senhor, o doutor só atende na sexta. Mas posso agendar para o senhor.
- Agendar? O que e isso?
- Marcar senhor, eu posso marcar um horário para o senhor.
- Então tá bom, pode marcar.
- O senhor pode me adiantar o assunto?
- Não posso não, e particular.
- Mas eu tenho que saber o assunto, senão não posso marcar o horário para o senhor, é ordem do promotor.
- Pode largar pra lá, dona, vou falar com o juiz, que é mais importante do que promotor.
No Fórum:
- Dona, quero falar com o doutor juiz.
- Para falar com o juiz tem que conversar com o assessor dele primeiro.
- Mas eu quero falar é com o homem, não é com o assessor dele.
- O juiz não pode atender, primeiro tem que falar com o assessor.
- Então tá bom, chama o tal de assessor.
- Qual o assunto?
- É particular, dona, não posso falar.
- Para falar com o assessor do juiz tem que falar o assunto, é a regra, e outra coisa, tem horário somente para daqui a quinze dias.
- Muito obrigado, dona, pode deixar, tem gente acima do juiz pra eu falar.
Tentar falar com o prefeito seria perda de tempo, pois o homem não atende o povo e vive viajando. Agora restava somente o padre. Ah, esse iria lhe atender.
Na secretaria da igreja:
- Boa tarde, moça, eu preciso falar com o padre.
- Qual o assunto que o senhor quer falar com o padre?
- É que eu quero confessar, sabe?
- Sei, mas o senhor participou da confissão comunitária que teve no mês passado?
- Não, senhora, o que é confissão comunitária?
- Logo se vê que o senhor não frequenta a igreja, pois do contrario saberia que todo último domingo do mês tem confissão comunitária.
- É verdade, ando meio sumido da igreja, mas o que importa é que agora quero confessar.
- Não é assim não, o padre só faz confissão pessoal de quem frequenta a missa e participa da confissão comunitária.
- Sei, então tá bom, muito obrigado, fica com Deus.
Saiu da igreja praguejando contra a justiça divina e a dos homens.
Na volta para casa passou no bar do Tonho.
- Tonho, bota uma pinga aí.
- Que cara é essa homem, tá parecendo que comeu e não gostou.
- Sabe o que é Tonho, eu tô aqui pensando com meus botões, hoje eu tentei falar com o delegado, com o promotor, com o juiz e com o padre e nenhum deles me atendeu.
- E daí? Essas pessoas são muito ocupadas, não têm tempo para perder com conversa fiada não, homem.
- Mas, rapaz, o que eu tenho para falar é muito importante.
- Ô diacho, que assunto assim de tão importante você tem para tratar com essas autoridade, homem de Deus?
- Até tu Tonho? É particular rapaz, não posso te contar não!
Jorge Damante, licenciado em História e bacharel em Direito