08 de julho de 2026

Dona Carlota e o Natal


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Foi a diligente dona Carlota quem deu o primeiro toque no delicado assunto, que mais parecia preocupação para as calendas gregas:

- No Natal, eu acho que nós não devemos trocar o exagero de presentes que trocamos. Estão envolvidas muitas pessoas, fica tão caro! Sou pelo amigo-secreto, e pronto.

Ninguém se opôs formalmente à questão, mesmo porque ainda era abril. Dezembro estava longe, protegido por maio, junho, etc.

Pode até ser que, embora analisando a situação de tantas demissões pré-anunciadas e a própria carestia de vida, por mais que o PT diga que a economia vai bem no Brasil, alguém aplicasse a dona Carlota fortes apelidos como pão-duro, muquirana, muxiba, mão-de-vaca. Injustiça. Apesar de ser reconhecidamente provida, como a formiga que contracenou com a cigarra na fábula, dona Carlota por certo estava pensando muito mais na situação dos outros.

Somados os muito velhos, os velhos, os envelhecentes, a nova geração casada, o bando de filhos, a turminha de netos e bisnetos, os genros, as noras, bastava bobear e na ceia de 24 de dezembro seriam mais de vinte bocas famintas.

Na sala adequada, debaixo da árvore pisca-piscante, perto do presépio cada vez mais sucinto, por muitos e muitos anos os presentes amontoados conseguiram formar belos conjuntos, variados nas formas, caprichados nas embalagens, incógnitas de funções e de preços, mas sempre motivo de alegrias discretas.

Todos gostavam de estar ali, oportunidade única do ano. Depois da parte formal, com orações de mãos dadas e tudo, alguém mais expansivo dava início às amenidades. Daí a pouco, tantos falavam sem necessidade, riam sem motivo maior, acarinhavam as crianças, gracejavam com os mais idosos. Havia acusações meio de brincadeira e meio em código, numa cumplicidade que levantava minimamente as pontas do véu cada vez mais espesso em que o cotidiano dos moços ia se transformando para os pais, para os avós.

E comendo, bebendo, palrando, varavam todas as horas felizes da noite especial, cada um merecedor de inesperadas escolhas, tantas delas de uma poética inutilidade. Era o Natal, enfim, com seu tempo resgatado da dispersão da vida.

Agora o remate da proposta de dona Carlota.

- Gente, isso de amigo-secreto é para facilitar, é para racionalizar. O nosso Natal continuará o mesmo.

E assim, por votação simbólica, ficou assentado que naquele Natal vigoraria a instituição do amigo-secreto.

Houve, é claro, quem só tivesse concordado para não discordar. Dona Carlota não deveria ter aberto uma fenda no espírito de Natal?

Não teria nivelado por baixo, drasticamente? Não teria inoculado, no oásis da quadra festiva, o germe do utilitário, do óbvio que marca as vidas, o ano todo? Não teria ceticamente reposto em circulação a velha pergunta machadiana a respeito das mudanças que ocorrem nos natais de cada qual?

Foram vãos todos os temores.

Chegou dezembro e passou dezembro.

Nenhuma fenda se abriu no espírito do Natal, que transcorreu alegre, fraterno, cordial e tudo o mais. Cada um cumpriu sua parte em todos os rituais: deu presente, recebeu presente, ouviu gracinhas, fez gracinhas. Cada um também, brasileiramente, desrespeitou o pacto antiinflacionário bolado por dona Carlota. Muitos embrulhos rolaram com jeito de contrabando, arrebentando o oficialismo do toma-lá-dá-cá. Quantas notas de cem, estalando de novas, saíram de bolsos abonados para jovens necessitados!

Fez-se de conta que não se viu nenhuma transgressão; ninguém explicitou por palavras o geral sentimento, que poderia ser assim resumido:

- Se, como brasileiros residentes no Brasil, temos suportado tantas injustiças, tantos atropelos, resistido a tanto, pagando tanto imposto por tão pouco, por que nos curvarmos às boas intenções de uma senhora imbuída do propósito de pôr juízo na cabeça dos outros exatamente na noite de Natal?

Inovação, mesmo, foi que ninguém desta vez se lembrou de armar o presépio.

Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos