São clássicas. Muitas vezes até mais conhecidas e difundidas que muitos livros da mais pura literatura dos países onde estão arraigadas e passam de geração para geração. Embora não sejam consideradas críveis, avós, pais e netos acreditam nelas. E os tios, sobrinhos, cunhadas e funcionários dessas famílias, também.
Tem a da Loira do Cemitério. Sempre é vista nas imediações do recinto, depois da meia-noite. Percebe-se seu rosto obscurecido pela capa que a protege da chuva. É lindo, ainda que difuso. (Loira, linda, cemitério, chuva, madrugada: bom final é que a mistura não sugere.) Passa noctívago perdido, meio alcoolizado, e a vê. Oferece carona. Ela aceita. Entra no carro. Dão voltas e ela faz mistério durante as respostas, principalmente sobre seu endereço. Conversam. Ele se apaixona. Ela fornece as informações sobre onde mora: rua e número. Já entusiasmado com o romance de fim de noite, ele chega na frente de portão de ferro. É o do cemitério. Ela desce e desaparece no lusco-fusco dos primeiros raios solares. Ele entra desesperado, encontra a tumba — por coincidência o mesmo da ‘casa’, e sobre ela a foto da linda loira, falecida décadas antes.
Tem a da Mulher da Estrada. É contada por nortistas e sulistas — daqui e do estrangeiro. Conheci-a através do relato do pai de grande amiga que recém-chegado da viagem, reportou a história ao bando de mocinhas que se encontrava em sua casa, ainda pálido de espanto o que lhe acontecera na estrada Ribeirão Preto-Franca, bem na altura dos eucaliptos que nem existem mais, no final da década de 60. Fiquei noites sem dormir e até hoje, quando passo no local — irreconhecível, aliás — seja dia ou noite lembro-me da história. Se é durante o dia, intimamente dou meu temível sorriso de escárnio. Se é de noite, torço para o carro não enguiçar. Chovia. Ele estava sozinho. Faróis acesos. Pista molhada. Do nada surge à frente do carro, iluminada pelas luzes fortes, mulher com capa imensa, branca, que lhe fazia sinais. Ele impulsivamente pôs o pé no breque. Seu instinto de sobrevivência alertou que o carro poderia derrapar. Decidiu correr mais, atordoado pelo medo. Corria, mas a mulher o alcançava. De repente, clarão de raio, trovoada, a visão de árvore atingida ... e a mulher desapareceu. Chegou em casa. Foi direto para o banheiro.
Aconteceu com gente próxima. Lactente, seu filho usava apenas Sobee, leite de soja em pó, que frequentemente desaparecia das prateleiras. O apetite do rapazinho, em fase de crescimento, fazia-o consumir uma lata a cada dia e meio. A mãe se viu desesperar: tinha seis latas o que garantia alimento para menos de uma semana. E ele não ajudava: parecia mais esganado que de costume. Duas latas apenas, nenhuma notícia sobre reposição, bate à porta senhora com duas crianças. Vinha do Posto de Saúde, onde o médico — citou o nome do pediatra — lhe dissera que ali ela poderia arrumar o leite para o filho em situação crítica de desidratação. Mães querem proteger a cria. Se ela repartisse o pão, o filho poderia precisar. Olhou para a mulher, ela devolveu o olhar. Sem pensar, buscou a lata, entregou-a. Olharam-se novamente. A desconhecida deve ter agradecido.
A outra ficou sentada por algum tempo no alpendre: hesitava entre a satisfação da ajuda e a possibilidade de ver o filho passar fome dali a pouco. Ao dar a última mamadeira, da última lata, ouviu tocar a campainha: era o funcionário da farmácia que vinha entregar quatro caixas, dúzias de Sobee. Pensou na desconhecida, ligou para o médico, ele não sabia informar quem era a mulher, nem se lembrava de ter atendido criança com a mesma síndrome do seu filho. A história — verídica!, juro! - também envolve loira, mistério e carece de explicação.
Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br