Eu
Acordo com o leve sopro do vento, que a pretensão de tudo mover transforma em velas as fixas cortinas de meu quarto. O sol chega quase à soleira da porta, é o limite do quanto posso permanecer deitada, com preguiça. Ponho um pé pra fora, o primeiro toque é do assoalho velho, apenas polido. Fixo-me nos pés bronzeados, nas unhas vermelhas, 12 segundos. O vento, 12 segundos, o cheiro do mar, 12 segundos, é o quanto basta ao meu cérebro para mais um dia armazenar em algum canto imutável a beleza dessa composição.
Transponho esse cômodo e chego ao outro cômodo, a cozinha, coloco água para ferver, café e açúcar no devido lugar, minutos depois estou sentada na imensa varanda que circunda toda a casa e a casa é só quarto e cozinha, praticamente vazios, a casa é alta e há apenas um mínimo necessário de paredes, menos e nem seria uma casa. Recobro o ânimo, acabo o café e começo a arrumar o local onde cozinharei.
O Homem
Meu homem é velho, exatamente como gosto. Mas tenho que usar de sinceridade, trata-se de uma velhice bela, uma branda deterioração. Continuam lá o peito atlético, as costas eretas. A força e agilidade podem ter diminuído, apenas porque cederam lugar à calma necessária a quem há muito determinou o alvo. A longa exposição ao sol fez dele loiro, quem sabe ruivo, ninguém o adivinharia moreno. As sardas às costas denunciam verões e um descuido que vai tão bem aos homens. Ainda que eu lhe fale sobre protetores. A essa hora ele deve estar chegando.
O Peixe
O peixe chega até mim na ponta de um arpão, é prata como a lua debaixo desse sol escaldante, é meu preferido: Barracuda. Encaro-o de lado, é assim que se encara um peixe de frente e ele é lindo. Faço uma breve oração e arranco-lhe a cabeça num golpe de faca, rasgo-o, eviscero-o, passo-lhe por todo o corpo minha escova de aço, retiro-lhe os paetês. Lavo tudo, esfrego limão, pincelo manteiga, jogo sal, um tiquinho de pimenta do reino. Coloco um ramo de alecrim em cima de cada metade, a brasa crepita, a grade de ferro espera o peixe, nós esperamos o peixe. Em cinco ou dez minutos estará pronto, preciso correr e amarrar a toalha aos pés da mesa, antes que ela saia voando.
Este é um dos meus sonhos de ano novo e o de vocês?
DICA DA SEMANA
Batata palha
Uma dica bem legal que aprendi há algum tempo é como deixar aquela deliciosa batata palha bem soltinha e crocante. Pois bem, a primeira e imprescindível coisa é: após ralar a batata no ralo grosso (elas devem ficar do tamanho de um palito de fósforo), você deverá lavá-la num escorredor de arroz. Mas é lavar muito bem, até que aquele amido branco saia todo.
Feito isso, devolva-a para uma vasilha e cubra novamente com água e acrescente um pouco de álcool, mais ou menos meia xícara de café. Ponha para escorrer, espere até que não esteja mais pingando.
Óleo bem quente, teste, coloque um fiapo de batata quando ele estiver na superfície e chiando você poderá começar a fritar. Aos poucos, sem pressa. Ficarão perfeitas.
Outro truque sobre batatas é para evitar que escureçam. Quando você descasca antes do uso, elas ficam escuras se deixadas ao ar. Para evitar isso, deixa-as de molho em água fria.
Na hora de comprar as batatas, aperte-as e prefira as que estão mais firmes. A casca deve estar lisa e fina. Elimine as que estiverem com manchas.