08 de julho de 2026

A receita? Solidariedade


| Tempo de leitura: 3 min

Plantar uma árvore. Ter um filho. Escrever um livro. O assunto surgiu à mesa do almoço, ontem, na cantina GCN. Estávamos lá, eu, Paulo Martins — repórter de linguagem ácida e ironia que instiga, ele que, em muito, me lembra Gabriel Ciciliani, companheiro de redação que morreu muito jovem —, Divaldo Moreira, fotógrafo premiado, ambientalista, sempre com uma frase clássica na ponta da língua para tirar lições das alegrias e das tristezas; e Bruno Piola, bom repórter da nova safra deste Comércio.

Divaldo matutou: ‘já plantei árvores, tenho filhos e fiz dois livros’. Referia-se a cumprir metas, lembrando-se da história da vida de Albert Schweitzer, Prêmio Nobel da Paz de 1952, doutor em filosofia, teólogo, mestre na música de Bach e que, apesar de ter alcançado sucesso em tudo o que fez, não se considerava completamente feliz. Faltava-lhe algo. Arrepiou-se em ir cuidar de desprovidos na África e, para chegar lá, tornou-se aluno de Medicina na Universidade de Strassburgo aos 30 anos.

Formado médico especialista em doenças tropicais, deixou tudo, a universidade, os amigos, a fama, e foi para o Gabão, fundar hospital para doenças tropicais e uma clínica para leprosos, a Lambaréné, desenvolvendo atividade médica e missionária junto com sua mulher, Hélène Breslau. Trabalhou até sua morte, em 1965. O hospital ainda existe. O prêmio Nobel a ele concedido, dedicou-o à solidariedade. Dizia que sem solidariedade, a vida é nada. Solidariedade que, hoje, devagar, vai se tornando nada. A música canta ‘cada um no seu quadrado’ e a ‘sabedoria popular’ — que mudou muito — ensina: ‘preocupe-se com seu próprio umbigo’. Ensina, aliás, de tal forma, que todos aprendem com rapidez espantosa. ‘O Zé, que se vire. Tenho que cuidar de mim, ele que cuide de si’.

Paulo Martins ouvia, o que faz pensar, concordava. Seus jocosos comentários, eram silêncio. Bruno Piola apimentou o debate. ‘É simples isso de plantar árvores’. Não está errado. Plantar um árvore, nada mais é que cavar, depositar a semente (ôpa, prá que semente? A gente vai ao Jardim Zoobotânico, ganha uma muda já criada e coloca onde quiser) largar lá. Dizem que a natureza cuida. Escrever um livro também. Você escolhe o tema, escreve, o computador o ajuda a tornar tudo intelegível, a própria máquina revisa, você lança mão de uns trocados, vai a uma gráfica e, ‘está lá’, como dizem os portugueses. Pode não se tornar um clássico, mas, ‘está lá’. Fazer um filho, simplíssimo. O prazer é que conta. Filho é sequela. Tudo ficou, realmente, simples. Ai, explodi: ‘Peraí!’

Schweitzer era famoso, mas não se sentia importante, como tinha acabado de dizer Divaldo. ‘Tornou-se, depois que abriu mão do ter e voltou-se totalmente a ser’. Dedicou-se a pessoas que não tinham nada. Disse, até antes de morrer, que se fez ‘um humano melhor, porque o passou a fazer, aquilo sim, é que o fazia feliz’. Plantar uma árvore, fazer um filho, não significa só ‘plantar’ e ‘fazer’. Tem que cuidar, tem que solidarizar, tem de educar, aguar, ensinar, adubar, ver crescer, sofrer e rir nos momentos tristes e alegres, participar, sair de si até que a árvore, agradecida, pague com frutos e sombra; e o filho crescido, tornado gente, se lembre de multiplicar o jeito certo de fazer as coisas.

Paulo, meneios afirmativos de cabeça, nos trouxe de volta à realidade, a seu jeito. ‘Tão vendo? Nem tudo o que a gente fala na hora do almoço, é (...). Entramos fundo (sic) na análise dos que não tão nem ai. Foi um prazer. Com responsabilidade, é claro...’

AGRADEÇO: Agradeço a Amir Antônio Miguel e Narmen, Paulo Rubens de Almeida, Edson Arantes, José Moacir Pelizaro e Maria Conceição, Sônia ‘Patrícia’ Pizzo, Valdes Rodrigues, Cleide Ferreto, Janaína De Lucca, Alex Cintra Chagas, Tiago Bachur, Lúcia Brigagão, Paulo Xavier e equipe da padaria Estrela. Gentis e solidários, tornaram meu 2 de janeiro de 2013 inesquecível.

Luiz Neto
jornalista, radialista, editor de opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br