09 de julho de 2026

Gerente do Sebrae: 'Franca não depende mais só de um segmento'


| Tempo de leitura: 7 min
Gerente regional do Sebrae Franca fala dos 20 anos de autuação da entidade em Franca e da mudança na economia com a chegada dos novos empreendedores

Ela já esteve do outro lado do balcão sendo dona de uma empresa de informática. Com o avanço da tecnologia, a ribeirãopretana Iróa Nogueira Lima Arantes, 41, resolveu mudar de ares e passou a trabalhar na área de educação do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas). Em pouco tempo, ganhou espaço dentro do órgão, começou a trabalhar com gestão, foi consultora e há sete anos recebeu convite para assumir a gerência do Escritório Regional do Sebrae em Franca.

A unidade completa neste mês, 20 anos de funcionamento na cidade com mais de 24 mil atendimentos somente neste ano, entre consultorias, orientações técnicas, informações, cursos, missões empresariais, palestras, oficinas, capacitações e eventos.

Iróa é quem comanda tudo de perto, sendo responsável pelos 19 municípios da região de atuação do Sebrae/Franca, que juntos reúnem mais de 600 mil habitantes e concentram 36.930 micro e pequenas empresas, quase metade do setor comercial.

Casada, Iroá tem uma filha e formação em economia e também é mestre em educação. Trabalha em defesa da mulher nos negócios, fala dos riscos de uma gestão não profissional, dos cuidados que se deve ter na hora de abrir um empreendimento e da importância de um bom planejamento. No atendimento de empreendedores de diferentes áreas, Iróa diz que Franca não depende mais exclusivamente do calçado e que o setor de serviço ultrapassará até mesmo o setor comercial. “A indústria, além de não crescer tanto, já está mais diversificada. Temos calçados, confecção e a entrada agora do segmento de beleza e saúde.”

O Sebrae Franca completa 20 anos de atuação, mesmo tempo que você tem de empresa. Como foi sua entrada no Sebrae até chegar à gerência na unidade de Franca?
Antes de entrar no Sebrae, tive uma empresa de informática, trabalhava com serviços de manutenção. A tecnologia foi mudando e com isso entrei no Sebrae. Entrei para trabalhar especificamente com educação, porque sempre gostei muito dessa área e cheguei até, na adolescência, ser professora de balé. Dentro da educação aprendi um pouco de gestão, trabalhava com empresários e a partir daí trabalhei no escritório regional de Ribeirão Preto como consultora, desenvolvimento de projeto, fiz bastante coisa dentro do escritório até surgir a oportunidade de assumir a gerência da unidade de Franca onde estou há sete anos.

Como foi sua mudança de Ribeirão Preto para Franca? São cidades com perfis muito diferentes...
Franca, apesar da proximidade com Ribeirão Preto, é uma cidade muito diferente tanto na base econômica como no âmbito cultural. Quem é de outra cidade e vem para cá consegue perceber essa diferença. A economia de Franca tem foco na indústria e isso traz uma cultura diferente que contamina todos os empreendedores. Aqueles que são do setor comercial ou de serviço têm algumas características do empresário da indústria, que foi responsável pela formação da cidade. Até mesmo a mão de obra sente esse reflexo. Quando outro setor tem a necessidade de mão de obra focada mais em resultado e comissão, o profissional sente dificuldade em encontrar, pois a maioria está acostumada a trabalhar em fábrica, onde se oferece um salário fixo.

O que mudou em Franca após a implantação do Sebrae?
A gente vem em uma crescente, pois o Sebrae monitora a mortalidade das micro e pequenas empresas e tem a missão de desenvolver a competitividade. Nesse período, reduzir a mortalidade já foi um ganho substancial e esse resultado vem da preparação do empresário. Pesquisas nos mostram que quanto mais informação ele busca no planejamento, menor é o risco de ter a mortalidade da empresa, principalmente durante os dois e os cinco primeiros anos.

Como está a mortalidade das pequenas empresas?
Esse volume de empresas que fecham hoje está muito menor. O percentual de Franca está um pouco acima da média estadual e a indústria morre menos, até mesmo porque a estrutura para abrir uma indústria é maior. Temos um ponto percentual acima da média do Estado que é de 78% de sobrevivência. Isso mostra que ainda temos a mortalidade, mas ela é menor do que tínhamos no passado.

Por que as pessoas desejam tanto se tornar empreendedoras?
Faz parte da nossa cultura querer ter o próprio negócio, querer ser o dono. Popularmente falando, ser o patrão, dar as ordens, mandar. Isso cria uma expectativa de liberdade, de autonomia. Um dos comportamentos necessário para o empreendedor ter sucesso é a independência e a autoconfiança. Acredito ser uma busca para que isso aconteça e até mesmo pela atuação como profissional. Sendo funcionário, você tem um limite de renda e como empresário você vence essa barreira, do teto de salário que se paga e passa a ter o controle do seu ganho, podendo ter uma renda maior. Além disso, anteriormente, era mais difícil sair da informalidade. Hoje você consegue se formalizar com mais facilidade. Um pintor, por exemplo, consegue estar dentro da formalidade como um empreendedor individual, com CNPJ e recolhendo impostos.

Em Franca esse comportamento é maior do que em outras regiões?
Pelo trabalho desenvolvido em Franca pelo Sebrae, Prefeitura e outros parceiros que fizeram um trabalho forte para legalizar os informais, proporcionalmente ao número de habitantes temos um volume grande de pessoas legalizadas. Porém, estamos dentro da estatística estadual de inadimplentes no que se refere aos atrasos nos deveres desses empreendedores. Eles se esquecem de pagar o tributo, que é baixo (R$ 39 por mês), esquecem de fazer a declaração de faturamento anual. Então, nesse ponto nos igualamos com o resto do Estado.

Com tantos empreendedores em Franca, a cidade está mais diversificada?
A diversificação em Franca já é uma realidade, pois não vemos mais na cidade uma crise econômica tão acentuada. Hoje, a indústria cresce menos e houve dois anos em que ela não cresceu, ficou negativa e quem segurou a economia local foram os setores comercial e de serviços. A tendência é que o setor de serviço até ultrapasse o setor comercial. Além da indústria não registrar um grande crescimento, ela está se diversificando. Temos inclusive a entrada de outros nichos de mercado na cidade. Existe o calçado, mas também temos confecção e a entrada do segmento de beleza e saúde e isso incrementa a economia local. Vemos que Franca não depende mais só de um setor, só de um segmento.

Diante desse crescimento, quais os erros mais cometidos pelos novos empresários?
Não falamos erros, tratamos como uma falta de planejamento, uma falta de estrutura. Muitas vezes esse empreendedor não conseguiu entender tudo o que precisa assumir como responsabilidade. O primeiro passo é se dedicar ao planejamento do novo negócio. Isso é, fazer uma pesquisa, ver como o fornecedor trabalha, como o concorrente atua, quais são as expectativas do público alvo, qual a necessidade de caixa para prestar o serviço. É preciso olhar com atenção toda essa estrutura e além disso uma das falhas é mobilizar o capital que ele tem. O empresário compra máquina e paga à vista, compra o prédio e paga à vista e depois fica sem caixa para capital de giro. O dinheiro em banco para capital de giro é muito mais caro, do que se fosse para máquina. O mais difícil é o planejamento, o conhecimento de mercado e como lidar com as finanças da empresa. Além disso, o empreendedor de Franca também não sabe selecionar mão de obra.

O fato de muitas empresas da cidade serem familiar atrapalha?
Tem vantagens e desvantagens. Muitas vezes as pessoas olham uma empresa familiar como algo não profissional, essa é a grande dificuldade. Independente da experiência, se sou da família posso ter um cargo maior, de comando, mas muitas vezes não dá certo. A empresa pode ser familiar, mas mesmo sendo da família é necessário colocar essa pessoa para ter experiência e conforme ela for tendo resultado, ela vai progredindo dentro da empresa. Não adianta, porque é filho, ele será o gerente. Por ser filho, ele precisa conhecer muita mais da empresa que qualquer outro funcionário, precisa entender de cada setor, aí sim ele pode ser o gerente. Deve se tomar muito cuidado para não confundir competência técnica com vínculo familiar. Em Franca existe muito essas situações e é onde acabamos presenciando grandes dificuldades de comando.