Aos ouvidos de quem não a conhece, Teresa Bertoncini Silva, de 67 anos, parece estar conversando com uma filha, neta, ou, quem sabe, um animalzinho de estimação quando diz: “essa é minha menina querida” ou “vou pegar o meu bebê lindo”. Mas não. Dona Teresa das Bonecas, como alguns a chamam nos últimos anos, está falando com as integrantes da coleção que lhe rendeu até um novo “sobrenome”. Moradora em Batatais, ela mantém em sua casa uma generosa coleção de 2.634 bonecas - número que pode facilmente ter sido alterado após o fechamento desta edição e que ela controla na memória.
A batataense conta que a paixão por bonecas é antiga, mas a infância simples da zona rural só a permitia ter exemplares feitos de sabugo de milho. As peças industrializadas só fazem parte de sua vida adulta e passaram a existir para ela com a chegada da rosada Elis Regina. Segundo Teresa, embora intacta pela juventude que só as meninas de plástico mantêm, a primogênita da coleção está quase na faixa dos 40. Ela foi adotada em uma barraca de jogo de argolas no parque infantil da primeira edição da Festa do Leite. A segunda “filha”, Andreza, uma boneca Meu Bebê, clássico da fabricante Estrela, era a única companhia de Elis até oito anos atrás.
Foi em meados de 2005, acometida por um grave problema de visão, que Teresa fez da paixão um amor eterno pelos brinquedos. “Um derrame nas vistas me deixou cega de um olho, isso me deprimia e eu só pensava em me matar. As bonecas vieram como uma terapia. Fui operada, fiquei boa e falei que elas sempre estariam em meu caminho.”
E, literalmente, passaram a estar. Em poucos anos, quarto, sala, cozinha e outros cômodos da casa se tornaram insuficientes para acolher tantas meninas de borracha, de plástico e de pano. Com o apoio de seu marido, o funcionário público aposentado Nilton Santos, 73, uma suíte exclusiva de aproximadamente 20 metros quadrados - que também já se mostra pequena - foi erguida nos fundos do terreno.
No local, dispostas em 18 prateleiras de aço - e também sobre outros móveis, carrinhos de bebê, cestas e o próprio chão - as bonecas “disputam” a atenção de sua tutora. “É como se elas falassem comigo. Quando vou sair, digo ao Pedrinho (boneco com trajes amarelos): tome conta de tudo por aqui. E tenho a nítida impressão que ele sorri para mim, entendendo o recado”, conta.
Organização
Todas as bonecas são devidamente vestidas e adornadas com bijuterias e acessórios e têm direito a banho e mudança de visual ao menos duas vezes ao mês. E, para que o look não se torne cansativo, um guarda-roupa exclusivo abriga nada menos que 1.500 vestidos, saias, calças e blusas extras que vestem das esbeltas Barbies a bonecas plus size - todos fabricados em uma máquina de costura pela própria colecionadora.
E quem pensa que as bonecas são paixão única se engana. A batataense nutre ainda uma coleção de cinco mil imãs, 600 pelúcias e outras centenas de carrinhos e caminhõezinhos. “A grande maioria das coisas eu ganho. Acredito que tenha comprado, entre novas e de segunda mão, no máximo umas 200 bonecas. As pessoas ficam sabendo da minha paixão e me dão.”
Sem crianças em casa e morando apenas com o marido e seu único neto, de 20 anos, Teresa consegue manter a coleção intacta e, na medida do possível, organizada. “As crianças da vizinhança ou parentes até vêm visitar, mas elas nem me pedem para levar nada porque sabem que não me desfaço de nada. Muitas crianças, ao contrário, me presenteiam com mais bonecas.”