Natal, época de magia. Não precisa acreditar, só sentir, e não há como passarmos ilesos por esse espírito de renovação; seja cristão ou não, o Natal é a época do ano mais colorida e iluminada do ano.
Minha irmã e eu tínhamos um ritual anual. Pegávamos capim gordura daquele mesmo que o nosso avô servia ao gado dizendo ser o melhor prato para os bichinhos. E juntávamos bastante comidinha, dentro dos sapatos alinhados na janela, para as renas comerem. Dizia mamãe:
_Elas viajam muito, meninas; vamos pôr comidinha para elas?
Aquilo era o entusiasmo, e, olhe, a gente nem entendia direito o que era Deus. Mas Papai Noel foi um belo exercício de fé. Mamãe nos permitiu acreditar nisso até quanto pôde, até que um dia, eu mais velha e mais curiosa, não me rendi e fui madrugada adentro bisbilhotar.
Mamãe aos pés de gato foi até a sala, botou o presente da Nayara no sofá dela, e o meu no meu. Parece ter feito uma oração: Ah! Como ela era cuidadosa... Aquilo era Amor.
Deixar a criança acreditar/ser lúdica é generosidade. E mamãe sempre foi muito generosa. Em nos alfabetizar com Monteiro Lobato, Coleção Vaga-lume e tudo mais que pudéssemos carregar em nossos ainda curtos bracinhos.
Voltei para meu quarto, minha irmã estava no quinto sono - carinha feliz que sabia ia receber visita do papai Noel e ganharia um presente. Confesso não ter me decepcionado muito, eu já suspeitava que alguém não pudesse sozinho entregar o presente de todas as crianças do mundo.
Não contei nada a minha irmã quando acordou e me sacudiu aos berros:
_ Vem Janaína vemmmmmmmmmmmmmmm!!! O presente já ta lá!!!! minha irmã era muito feliz. Sorriso lindo! Eu não poderia reduzi-lo em nenhum milímetro.
Feliz com meu segredo olhei o rosto de mamãe que estava feliz sentadinha na ponta do sofá observando nós abrirmos os presentes, e dei uma piscadinha de cumplicidade. Não sei se ela entendeu, mas retribui com outra piscadela.
Minha surpresa veio quando Nayara chegou com nossos sapatos, sem capim e com uma coisa esquisita parecendo baba de vaca... Isso eu não vi mamãe fazer!
Minha irmã olhou pra mim e disse:
_Olhe, elas estavam com muita fome mesmo!
Fiquei intrigada; ao mesmo tempo reacendeu em mim uma luzinha que havia se apagado horas antes... E que permanece ainda hoje, acesa.
Janaina Leão, psicóloga