A praticamente duas semanas da chegada de 2014, o Brasil registrou uma série de avanços, mas o destaque ainda é ver o País marcar passo em outros pontos importantes e que levaram milhões de brasileiros às ruas em junho passado. De lá para cá houve apenas uma maquiagem superficial à guisa de atender à voz das ruas. Nada do que se esperava foi de fato conquistado. Constata-se mais um vez que o político brasileiro continua considerando o eleitor como desinformado e de memória curta. Caso novas manifestações explodam pelas ruas do País, é certo que vão se fazer de surpresos e correr com propostas de uma “agenda positiva” que, no final das contas, acaba passando ao largo das verdadeiras reivindicações populares.
Até agora, poucas propostas foram aprovadas pelo Congresso e, mesmo assim, de pouco interesse popular. A aprovação do fim do voto secreto no Congresso Nacional, uma das bandeiras dos movimentos de junho, foi um grande avanço, mas ainda manteve restrições que deveriam acabar. Pelo menos agora parlamentar não pode mais se esconder atrás do instrumento do voto secreto para votar cassação de seus pares ou então vetos presidenciais. Fora isso, não houve aprofundamento em outras questões.
A grita das ruas, que começou por causa do aumento das tarifas do transporte público em São Paulo e no Rio de Janeiro, apresentou novas bandeiras, como o fim da impunidade, do corporativismo político e da corrupção. A prisão dos condenados pelo Mensalão, incluindo o ex-ministro José Dirceu e os ex-deputados José Genoino, Pedro Henry (PP-MT) e Valdemar Costa Neto (PR-SP), deu um novo alento aos que defendiam o fim da impunidade. Mas ainda há mais de 800 políticos que aguardam julgamento por improbidade, além de outros tantos servidores que tratam a coisa pública como se fosse privada. Neste ponto, em que pese o interesse da Justiça em agir na preservação dos cofres da União, governos e municípios, falta celeridade para esta ação.
O corporativismo continua sendo a tônica da política brasileira, quando interesses pessoais se sobrepõem ao interesse comum. O loteamento dos cargos nas administrações federal, estaduais e municipais, de forma a conseguir apoio a propostas que muitas vezes não beneficiam o cidadão comum, é prática disseminada e causa um verdadeiro inchaço no serviço público brasileiro. Aliado à corrupção e às benesses que acabam desviando fortunas das ações que poderiam beneficiar e melhroar as condições de vida de milhões, continua fazendo o Brasil marcar passo.
As manifestações de junho, que deveriam servir de alerta para a insatisfação da maioria da população, já são favas contadas para quem tem delegação para realizar as mudanças necessárias e exigidas por todos. Legisladores e agentes públicos consideram que os anseios das multidões foram atendidos com algumas poucas ações. Que eles não se assustem se, mais uma vez, o povo sair às ruas clamando por mudanças. Afinal, o que se exigia em junho não foi atendido e tudo poderá voltar a acontecer.