Nas proximidades do Natal, empenhávamos nas preparações: trazíamos do campo galhos de cipreste para, arqueadas, formarem uma abóboda perfumada cobrindo o presépio; castanhas e nozes eram espalhadas pelos cantos dos cômodos; a guirlanda de folhas secas e entrelaçadas, à porta da rua, anunciava o animado estado de espírito dos moradores; na simplicidade do lar e parcimônia da despensa, pai e mãe desdobravam-se... E tudo virava magia embalada pelos sinos da igreja próxima.
Mas se eu não tivesse ido à escola, ao catecismo, lançado-me ao empenho dos deveres de criança ao longo do ano; se meus irmãos não houvessem trilhado o plano próprio do desenvolvimento; se meus pais houvessem simplesmente cruzado os braços, de que valeriam os encantamentos na Noite esperada? Em verdade, não estávamos apenas comemorando nascimento de Cristo, mas também e principalmente o fato de, juntos, termos vencido mais um ano. Juntos... O que era o mais importante, talvez a maior riqueza da família.
Com efeito, um ou dois dias antes do Natal, nas praças, calçadas, ruas, estradas, aeroportos, rodoviárias, pense bem! Todas aquelas pessoas apressadas, carregadas de malas e embrulhos, parecem ter um só destino: retornar ao lar para o reencontro com a família.
O caminho percorrido durante todo o ano trazia a insuperável sensação de dever cumprido. Agora, era o momento de graça, de regozijo, das mãos dadas em torno da mesa, os olhares radiantes, refletindo as luzes da árvore de Natal e das velas acesas sobre a cômoda.
“A estrada é sempre melhor do que a hospedaria.” Estas palavras do grande escritor espanhol Miguel de Cervantes correspondem a uma filosofia de vida. Quantos jovens, muitas vezes, desejam alcançar com excessiva intensidade algum objetivo, acabar algum trabalho, dizendo consigo mesmo que, quando aquilo estivesse pronto, encontraria verdadeira satisfação e recompensa.
Há de se pensar por outro lado: cada realização, como cada hospedaria, é apenas um ponto ao longo da estrada. O verdadeiro valor da vida vem com a própria viagem, com o esforço e o desejo de continuar em movimento. O homem verdadeiramente feliz é aquele que consegue admirar a paisagem após a breve parada, e mesmo quando é obrigado a seguir por um desvio.
Noto agora, sexagenário, que posso recapitular os meus anos vividos com prazer e, o que é mais importante para mim, que posso ainda encarar o futuro com esperança e desejo. Aprendi a considerar cada hospedaria como faz o viajante de Cervantes não como lugar de parada, mas como ponto de partida para algum novo empreendimento.
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos