20 de março de 2026

Observar humanos


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Passo longe de zoológicos. Bicho nenhum me fascina, só tenho medo deles. Macacos não são engraçadinhos e lobos, medonhos e fedidos. O pescoço da girafa me aflige, o urro do leão me atordoa e abomino a ideia de que ele se faz de rei dos animais e bota a leoa para prover a prole. Odeio jacarés e peixes me incomodam: qualquer animal imerso na água por mais de vinte segundos deflagra-me nova e impertinente crise de asma. Ursos são cruéis e fingidos. Cachorro jamais foi meu melhor amigo. Porém, bota porém nisso, o ser humano me encanta e deslumbra. Permaneço horas a observar reações, trejeitos, modos, respostas diferentes ao mesmo estímulo e comportamentos inesperados do esquisito bicho humano. Na observância da fauna humana às vezes ocorre alguma interação: a análise ganha novo fôlego, novas dimensões e aprendo. Muito.

A frequência em Londres para visita a familiares, facilitou-me entrar em contato com brasileiros que optaram por morar aqui. Ainda existem, mas são poucos os ilegais. Invariavelmente revoltados e insatisfeitos, falam mal do Brasil, espinafram os ingleses. Interessante, submetem-se diuturnamente a trabalhos braçais: limpam banheiros, chão de restaurantes, lavam panelas - atividades simples, dignas e honradas - que jamais fariam se estivessem no Brasil. E, aposto, não trabalham na terra natal tão arduamente quanto no exterior. Invariavelmente sonham juntar boa grana, para voltar com bolsos cheios. Parte dos legalizados alcançou a legitimidade através de casamento - por amor; por conveniência - cônjuge rico, sabe como é; ou sem amor e através de pagamento de taxa pré-combinada. Muitos tiraram passaportes europeus a que tinham direito por ascendência. Com a maioria dos brasileiros, mantenho conversa superficial. Com alguns deles, alguma proximidade. De muito poucos, contudo, considero-me amiga.

Vindas de todo lado, escuto histórias. Engraçadas, como a da paranaense que tem pesadelo recorrente: morreu e a levam de volta para o Brasil a fim de sepultá-la. Acorda suando. Quase quinze anos fora, descarta voltar: literalmente, nem morta! Ou a da mineira que deixou marido, filhos e veio encarar vida nova. A do paulistano - legalizado - que durante anos ralou, juntou dinheiro e voltou, cheio de esperança, para montar o tão sonhado pequeno restaurante na capital. No processo foi subornado, exigiram pagamento de tanta propina, que desistiu: voltou para Londres, continua ralando e diz que Brasil, só a passeio. Vai montar o restaurante aqui mesmo. A da piauiense baixinha que, cansada de ser ilegal, pagou 5 mil libras pelo casamento de fachada com inglês. Na véspera da cerimônia, insistiu em conhecer o ‘noivo’. Ele estava numa festa, ela foi ao encontro dele e se ri da surpresa na apresentação oficial ao rapaz de quase dois metros de altura: era festa gay, a fantasia, e ele estava vestido de espanhola. Com castanholas, véu e batom da cor do sangue do touro.

Gosto do clima daqui. Gosto de andar pelas ruas e ver os jardins das casas. Apraz-me ver o respeito do povo pela Rainha. Adoro olhar a variedade da programação cultural e não é ousadia, mesmo que passe das vinte e três, voltar sozinha para casa. Há segurança e todos se comportam como a salvaguarda de injúrias. Pontualidade e seriedade somam-se ao humor fino do bretão. Ontem no ônibus do bairro entrei, sentei atrás de um senhor que, virando-se para mim, pediu licença e perguntou educadamente: era eu quem tomava chá no café tal, no domingo? Usava vestido verde? Chapéu? Não, não era eu, sinto muito. Insistiu: casaco de peles preto? Tocou a campainha, percebi que ele desceria logo, achei melhor concordar: era eu, sim... Respirou aliviado, levantou-se e arrematou, já fora do ônibus: ‘Eu sabia! Dificilmente esqueço um rosto. Especialmente rosto de mulher bonita!’. Todos os passageiros ouviram. Minha vaidade foi lá em cima. Acho que vou ficar por aqui.

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, jornalista - luciahelena@comerciodafranca.com.br