Pouco antes do show que apresentaria no Sesi de Franca no último sábado, 7, a atriz e cantora Zezé Motta emanava alegria e vivacidade. Bem-humorada, ela pediu para não ser chamada de ‘senhora’ em uma rápida entrevista concedida ao Comércio. O pedido é justificável: aos 65 anos, Zezé tem energia de jovem e a agenda cheia. Conheça, nesta entrevista, um pouco sobre sua carreira, que abrange palcos de shows, sets de gravação, estúdios de TV, cabines de dublagem, e sua luta incessante em prol do movimento negro.
Um dos seus trabalhos mais significativos foi o filme Xica da Silva (de Cacá Diegues, 1976). Na descrição da sua página no Facebook, você afirma: “Tem gente que me chama de Xica.” Você se identifica com a personagem?
Eu me identifico no sentido dela ter sido uma mulher que não se conformou com o que seria o seu destino e foi à luta. Ela era guerreira, determinada. Quando eu era mais jovem, era bem assim mesmo (risos).
Como foi viver a mãe do personagem que te consagrou na novela Xica da Silva (exibida pela TV Manchete em 1996)?
Foi uma experiência incrível. Eu estava em Cabo Verde fazendo um filme quando recebi o convite do Walter Avancini (diretor da novela) para ser a mãe da Xica da Silva. Tomei um susto do tamanho do mundo, e fui dormir pensando nisso. Quando acordei, pensei: “Acorda! É uma homenagem bonita, e você tem que deixar de frescura (risos).” Na época, achava que, enquanto a Taís fizesse a escrava, não iria me incomodar, mas quando ela virasse rainha... (risos). Mas o Avancini era um dos diretores de TV mais perfeccionistas que conheci. Então, tinha que me preocupar com tanta coisa que não dava tempo para ter ciúme.
Você também deu voz à Úrsula, no desenho da Disney, A Pequena Sereia. Apesar dos elogios pela dublagem, é o seu único crédito na área. Por quê?
Uma curiosidade sobre a dublagem é que todo mundo pensa que eu também cantei Ciclo Sem Fim, de O Rei Leão (também da Disney). Por incrível que pareça, quem cantou foi um rapaz. As únicas vezes que eu dublei foram os meus próprios personagens, numa época em que o som direto no cinema nacional não era bom. Mas, fora isso, só dublei a Úrsula porque é um trabalho muito difícil sincronizar (a fala com o movimento dos lábios do personagem). Também trabalhei em um timbre que deixava com a voz dolorida. Mas gostei de fazer a Úrsula.
Você fará um show musical no Sesi de Franca. Na sua biografia lançada pela Coleção Aplauso, você diz que busca o personagem em cada canção que interpreta. Como é esse processo?
Para o meu trabalho de música, eu levo a atriz (risos). Euw pego a letra e fico procurando o personagem. Por exemplo, a Rita Baiana, que é uma personagem muito assanhada. (Começa a cantar) “Olha, meu nego...” (risos). Tem as músicas mais dramáticas, que, se eu estiver muito sensível, eu aproveito e já choro.
Você também é conhecida por militar pela causa negra. Uma de suas principais contribuições foi a criação do Cidan (Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro), em 1984, que lhe rendeu pré-indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2005. De onde veio a ideia para criar o Centro, e qual a importância dele para o artista negro?
Quando iniciei minha carreira de atriz, descobri que, para o negro, era uma carreira mais difícil. Nas novelas, sempre fazíamos os serviçais, e só havia um ou dois atores negros no elenco. Decidi que queria fazer algo pelo ator negro, que seria um arquivo de profissionais. Com o progresso, virou uma página na internet. Nós do Cidan temos muito orgulho de termos feito isso porque não se faz nada quando se quer uma cara nova de um ator negro, sem se recorrer ao Cidan. Hoje, conseguimos algumas conquistas, mas temos que continuar dando cotovelada, porque ainda falta espaço. Temos 500 atores negros cadastrados no Cidan, e esses 500 não estão em cena.
Para você, enquanto militante, o que significou a morte do ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, no último 5?
É uma grande perda, mas ainda bem que ele deixou um legado, que é ter acabado com o apartheid. Acho que ele deve estar muito em paz porque cumpriu com dignidade a missão dele no Planeta Terra. Mas, para a gente que fica, é doloroso perder uma pessoa tão importante.