Sou arroz de festa, como jurada, no concurso a que se submetem os alunos do curso da gastronomia da Unifran. Ajudo a escolher quais são os melhores pratos, consequentemente, os vencedores. Para os participantes é uma espécie de TCC que vem acompanhado da clássica dose de nervosismo e emoção.
Ao meu lado, pela segunda vez, o simpático Tiago, lá do restaurante Arroz com Feijão; ele não se cansa de me dizer: “Parece fácil a nossa missão aqui, mas não é”. O que lhe incomoda é a palavra: julgamento. Eu prefiro pensar que esse é um julgamento restrito a manufatura de um alguém, não a pessoa exatamente. Muito embora julgamos e somos julgados o tempo todo.
Pois bem, tomei o cuidado de sempre: dar aquela forradinha leve no estômago, assim chego nem esfomeada, nem enfarada - o que me garante certa parcimônia. Outra: comer o mínimo necessário de “cada concorrente”, assim não prejudico os últimos.
Começamos, a primeira entrada estava muito boa, tudo certo, etc. Aí chega a segunda: cappelletti in brodo... minha alma voou e eu pensei: Ferrou! Ferrou porque cappelletti in brodo é um dos meus pratos preferidos! Por conta disso já experimentei grandes pratos desses, o que poderia levar meu julgamento a uma exigência muito grande. Por outro lado, mesmo que estivesse meia boca, correria o risco de, assim mesmo, achar que estava muito bom.
Olhei com calma, analisei friamente o formato e a cor do prato, estava muito bom, colocaram pimenta rosa para minha maior satisfação, a cebolinha finamente cortada, como deve ser. Todos os cappellettis bem fechados e a massa fina suficiente para fazer do recheio uma sombra promissora. Provei meu controle mental e fiquei com água na boca.
O brodo é na verdade um caldo onde se pode mais tarde cozinhar uma massa, arroz ou risoni, de modo que fique bastante caldo, afinal é uma sopa. E espera-se que o caldo seja perfeitamente translúcido não importando se é claro ou escuro.
Estava assim o prato dos meninos, e o sabor delicioso, a massa no ponto e quente, como deve ser. Esperei pela discreta reação dos meus colegas jurados: ainda bem, todos assentiram, estava delicioso. Não foi a minha imaginação ou pré disposição.
Ao contrário dos outros concursos, este foi especialmente emocionante: alguém que esteve sempre por lá, não estava - nem estará mais. E tudo o lembrava. Não à toa, o cappelletti in brodo do concurso me levou até a extinta e ótima Tábua de Frios, não à toa me lembrei do cappelletti que tantas vezes comi por lá.
Imagino o passado como algo que vemos - mas que estamos impedidos de tocar - e o futuro como algo que se insinua por detrás de véus que, dia a dia, longos dedos tentam descortinar. Sobre o que foi pesa a pedra da imutabilidade, e no que está por vir reside a graça da vida.
DICA DA SEMANA
Gâteau de chocolate
Essa é uma receita simples e fácil de fazer que resulta num bolo de chocolate pequeno e se assemelha muitíssimo ao petit gâteau.
Os ingredientes são os seguintes: 125 gr de chocolate meio amargo, 125 gr açúcar refinado, 2 colheres de sopa de farinha de trigo, 3 ovos, 90 gr de manteiga. E só. Forno pré aquecido a 355 graus!
O jeitinho de fazer é que deve ser obedecido a risca! Bata as claras em ponto de neve, não deixe ficar mais dura que isso. Bata as gemas, reserve. Daí derreta o chocolate no forno e junte a manteiga amolecida, a farinha, o açúcar e as gemas. Junte as claras delicadamente e ponha imediatamente pra assar, por cerca de 35 minutos. Estará pronto quando se fizer uma fina camada firme em cima, mas ao bater delicadamente na forma o centro estará meio mole.
Deixe esfriar numa grade, ele se firmará.