A advogada Carolina Parzewisk Guimarães Vivenzio, de 36 anos, que se tornou um dos símbolos da campanha para a doação de medula em Franca, é só sorriso. Na última quarta- feira, o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto informou que quatro doadores são compatíveis com a advogada e poderão fazer a doação de medula que salvará sua vida. A chance de encontrar um doador compatível é de uma em cem mil.
Há pouco mais de um ano, Carolina sofre de uma leucemia grave e não pode fazer quimioterapia. “O médico disse que só poderia passar por nove ciclos de tratamento. Logo que descobri a doença, em 2012, passei por seis. Quando o câncer voltou em setembro, só tinha mais três ciclos até encontrar um doador.”
No dia 15 de novembro, Carolina encerrou o segundo ciclo e iniciou uma contagem regressiva para encontrar um doador. “Tinha mais 30 dias, porque depois meu organismo iria começar a falhar. A notícia veio em boa hora.”
Foi na sala da casa de sua mãe, no Bairro São José, que ela atendeu ao Comércio. Com a cabeça raspada,Carolina sorriu todo o tempo, brincou e agradeceu a todos pelo carinho e pelo apoio que tem recebido. Também falou sobre como a fé em Deus a tem ajudado a superar os momentos difíceis. “Tenho muita fé. Acho que é por isso que nunca me entreguei. Nunca desisti de lutar pela minha vida.”
Apesar da felicidade com a notícia do encontro de doadores, Carolina sabe que ainda terá muitas batalhas. “Agora preciso que um dos doadores aceite fazer a doação. Depois é necessário encontrar vaga para o transplante e, por fim, rezar para que a medula transplantada se adapte ao meu organismo.”
Como você descobriu que tinha câncer?
Foi em setembro de 2012. Inventei de fazer uma cirurgia de desvio de septo. Nos preparativos, o anestesista viu que meu hemograma estava inteiro alterado e me pediu que procurasse um hematologista. Procurei e passei por inúmeros exames até que ele me disse que estava com leucemia mielóide aguda, que era uma doença grave mas que tinha tratamento. Nunca pensei que pudesse estar com câncer. Não sentia nada. Não tive sintoma nenhum. Recebi a notícia numa quarta-feira, na sexta comecei o tratamento. Foram seis ciclos de quimioterapia e o resultado foi muito bom. Em março, recebi alta. Mas em setembro agora descobri que a doença tinha voltado.
E como foi receber a notícia de que estava com câncer pela segunda vez?
Fiz todos os exames de acompanhamento e não apontavam nada. Mas em setembro apareceu uma mancha roxa na minha perna. Achei que pudesse ser alguma coisa e procurei meu médico. Ele conversou comigo, disse que talvez não fosse nada. Mas mesmo assim resolveu antecipar os exames. Olhei os resultados e vi que a doença tinha voltado.
Normalmente, as pessoas quando descobrem que estão com câncer ficam abatidas. Você não ficou triste?
Não. Acho que até lidei muito bem. Até com a quimioterapia. Não tive nenhuma reação mais dura. A única coisa que aconteceu foi o meu cabelo que caiu. Aliás, caiu não. Meu filho de 10 anos que raspou. Porque sabia que ia cair e achei que era melhor para ele que ele mesmo raspasse a minha cabeça ao invés de ver a mãe chegar careca. Achei que fosse menos traumático. Acabou sendo até uma folia lá em casa. Procuro lidar com a situação da melhor forma possível.
Mas essa não é uma reação comum. O comum é as pessoas chorarem. De onde veio a força para lidar com um câncer da gravidade do seu?
Veio de Deus, da minha fé. Nunca achei que fosse morrer. É lógico que fico preocupada, que fico conjeturando. Mas nunca fiquei com raiva de Deus ou me questionando, lamentando. Sempre falava assim para Deus: “Deus, acho um desperdício eu morrer agora. Estou numa idade produtiva, sou mãe de um menino que precisa de mim”. Chorei neste período todo muito mais de alegria que de tristeza. O câncer não é uma sentença de morte. Ele tem cura. É preciso seguir tudo o que dizem os médicos e acreditar na cura.
Voltando um pouco, o que sentiu quando abriu os resultados dos exames e viu que o câncer tinha mesmo voltado?
Então, na verdade, acho que já sabia. Eu me lembro de que quando vi a mancha roxa pensei: “é o câncer que voltou”. Mas sou uma pessoa de muita fé. Quando confirmei no exame, Deus já falou comigo. Ele me disse: “Olha, o câncer voltou mas desta vez será diferente”. Ainda comentei isso com a minha mãe. Fiquei pensando sobre que diferença seria essa. Só fui entender quando voltei ao médico e ele me disse que não teria mais como fazer quimioterapia, que só teria mais três ciclos e depois seria preciso um transplante.
Recomeçar o tratamento não deve ter sido fácil...
Não. Não foi. Mas sou uma pessoa de muita fé. Recebi a notícia com naturalidade. Claro que a gente assusta, mas não fiquei depressiva em nenhum momento. Nem no primeiro nem no segundo diagnóstico. Sou do tipo de pessoa que sempre pensa no que tenho que fazer. Tem que fazer quimioterapia, então, vamos fazer. O bom é que descobri o diagnóstico na mesma época da Semana Ana Laura (a garota de 12 anos que deu nome à lei municipal que incentiva a doação de medula) e começamos uma campanha para encontrar doadores compatíveis.
Mas acabaram esbarrando em dificuldades, que levaram você até a procurar a Justiça.
Exatamente, a campanha estava dando super certo. Mas um dia recebi um telefonema do Hemocentro me informando que infelizmente não poderiam mais fazer a coleta de sangue de doadores de medula porque havia uma portaria do Ministério da Saúde que limitava o número de pessoas que podiam fazer o cadastro como doadores. Isso foi um choque. Tinha três meses para conseguir encontrar alguém que fosse compatível e sou informada de que nosso esforço não adiantaria de nada. Como sou advogada, procurei uma amiga que também é e ela ingressou na Justiça Federal contra a portaria pedindo que não houvesse esse limite. No mesmo dia, a juíza concedeu a liminar. Em outubro, conseguimos 800 novos cadastros.
Conseguir que 800 pessoas fossem até o Hemocentro coletar sangue para o cadastro é um resultado expressivo. Esperava que tanta gente?
Só de falar sobre isso fico arrepiada. É muito emocionante. Foi uma disponibilidade das pessoas que não sei se teria. A maior parte das pessoas que foi lá não me conhece. Não sou uma mulher famosa, não sou uma autoridade pública, sou apenas uma advogada, uma mãe e esposa. Mas com a ajuda do Facebook um foi divulgando para o outro e virou uma campanha. Agora todo mundo torce por mim e sofre junto comigo e com a minha família. Eles me pedem notícias, querem saber como estou. É muito carinho. E quando soube dos doadores, a primeira coisa que fiz foi colocar no Facebook. Queria que as pessoas soubessem que a oração e a ajuda delas tinham dado certo.
Você falou do encontro dos doadores. Já tinha encerrado o segundo ciclo da quimio. Tinha apenas mais um mês para encontrar um doador. Como recebeu essa notícia?
Como tinha encerrado o segundo ciclo no dia 15 de novembro, precisei passar por todos os exames novamente. Como estava esperando para saber se a minha mãe e a minha irmã seriam compatíveis comigo, resolvemos marcar uma consulta com os médicos no Hospital das Clínicas de Ribeirão e fomos na quarta-feira. A gente estava dentro da sala dos médicos e eles consultaram o computador para ver os resultados dos exames que tinha feito. Comecei a explicar que queria começar o último ciclo da quimio depois das festas de fim de ano. Foi quando ele me perguntou se queria fazer a quimio ou o transplante. Fiquei uns segundos pensando e, só então, perguntei se eles tinham encontrado algum doador. Ele disse que sim. Nossa, foi muita emoção. Minha mãe e minha irmã já se abraçaram. Ficamos muito felizes.
E você já sabe quem são os doadores?
Então, sei que são quatro estrangeiros. Um deles é uma mulher jovem. Mas não sei detalhes.
Quais os próximos passos?
O hospital deve entrar em contato com os doadores para saber se realmente aceitam doar. Se aceitarem, um médico do Brasil irá viajar para fazer a coleta. A medula é como o sangue. Ela virá congelada para o Brasil e aqui farão o transplante. No dia 15 de janeiro, eles me respondem se algum doador aceitou. Se tiver aceitado, devo me operar em fevereiro. Isso se encontrar vaga de transplante porque existem pouquíssimos leitos preparados para isso. Em Ribeirão mesmo, são apenas cinco leitos. Estou na fila e confiante. Depois começa mais uma batalha para que a medula se adapte ao meu corpo. Mas acho que vai dar tudo certo. Espero poder assistir a pelo menos um jogo da Copa no estádio.