Diverti-me como quando era pequeno, ontem, ao chegar ao trabalho. Estacionei o carro e, ao caminhar sob duas árvores que ‘guardam’ um dos portões do GCN, foquei atenção em sementes delas que coalhavam o calçamento. Quase ouvi suas vozes: “ei, você se lembra de nós?!’.
Peguei uma daquelas ‘asinhas’ que me acenavam. Como por mágica, voltei à praça Barão do início dos anos 60! Lá estavam as frondosas árvores do ponto de táxi, meus olhos arderam como se ‘lacerdinhas’ tivessem caído neles. Revi, então, as árvores das ‘asinhas’, cujas sementes jogávamos para cima e torcíamos para que se mantivessem muito tempo girando no ar.
Quase por encanto, lembrei-me também do pique-de-esconder, pião (havia uma técnica para atirá-lo longe e fazer ‘zunir’), futebol na rua, bolinha de gude, pipa (que a gente chamava de ‘índio’), canudinho (cortados de talos de folhas de mamoeiros ou metálicos), para usar como zarabatana de dardinhos de papel (enquanto escrevia, fiz um, mas só depois que me lembrei que o segredo está no corte do papel); e também, de estilingue, ‘goma’ feita de câmaras de ar de pneus de bicicleta e forquilha de goiabeira. A gente treinava pontaria atingindo os postes de ferro preto, da iluminação pública, não lâmpadas, e não vidraças. Depois, tentava encontrar caixas de marimbondos, para derrubar, ou mangueiras repletas de frutos.
Ávido para ver se era mesmo o que eu pensava, peguei várias sementes e as atirei para cima. Confirmaram-me: ‘somos nós, sim!’. É a ‘memória genética’ delas. E estava na minha, que rodariam. A memória é incrível. Simples clique, desencadeiam-se histórias inteiras, com cores, sons, cheiros, vozes, sensações táteis, emoções. Fiquei lá, lançando ‘asinhas’ para cima, mas a realidade me cobrou. Precisava encontrar o tema desta coluna. Coloquei-me a pensar sobre a reeleição de Jépy Pereira para a presidência da Câmara. Como estaria a cabeça da vereadora Valéria Marson, traída — como disse — por seus companheiros, os mesmos que, ano passado, se comprometeram a apoiá-la a ocupar a presidência em 2014? Eleita a vereadora mais votada, poderia ser sido presidente, mas, convencida, apoiou Jépy Pereira sob a condição de que, um ano depois, presidiria. Deu-se mal.
Há quatro ângulos de observação: o dela, que cobra ética, mas ‘respeita’ — e isso assusta, já que faz pensar que aceita, e, então, valorizar lições não éticas que podem levá-la também a segregar; a de companheiros seus, que optaram por abrir mão de valores morais e fio de bigode, coisas antigas que, com certeza, hoje são coisa nenhuma; a de eleitores que fazem vista grossa já que política é uma chatice, e não se envolvem; e a de quem observa de fora: por que homens públicos(!) e gente comum têm quebrado acordos, faltam com a ética, desobedecem leis, ignoram procedimentos judiciais, pouco se lhes importando o que deles pensem?
Justo Veríssimo, personagem através do qual Chico Anysio dizia o que políticos cochicham entre si, tinha a resposta: “o povo que se exploda!’. Comportamentos enviesados estão sendo praticados em público, sem medos! Muitos viram a reunião de acerto da reeleição de Jépy na churrascaria Minuano, Valéria não convidada.
O deputado Marco Ubiali, em seu livro Marketing Político - Administrando o Gabinete, não deixou dúvidas. Sem meias verdades sinalizou que a renda obtida com o mandato, cada vez mais compensadora; os favores, a influência, benesses e mordomias são fatores que conduzem políticos a pleitear reeleição. Bem, vereadora. Exercitar política, hoje, é enfrentar conchavos, pressões partidárias, interesses difíceis de contrariar. Como se vê, pode-se até ser tentado a jogar fora virtudes pessoais.
Restam dois caminhos: ou a senhora ‘respeita’ e se integra; ou grita independência. É impossível servir à política e aos eleitores, ao mesmo tempo.
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br