20 de março de 2026

Saudade de você, mãe...


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Longe de ser a última, evidentemente sem ser a primeira, sou mãe de filhos que moram — ou moraram — em algum lugar distante dos meus olhos e mãos. Antigo ensinamento diz que filhos, depois de casados, deveriam morar a lonjura tal que as mães do casal precisassem fazer malas e transpor estradas para vê-los; não tão perto que pudessem ir de chinelos. Talvez sim. Talvez não. É confortante poder contar com ajuda no período de filhos pequenos, que ficam doentes ou não nos deixam dormir à noite; mas é desconfortante ouvir palpites e conselhos que chegam e contradizem modernas prescrições médicas, de psicólogos ou educadores. É ótimo ter certeza que sempre há alguém de plantão que larga tudo e desliga o fogão para correr e pegar as crianças na escola, no balé, na casa do colega, quando a gente se atrasa. Mas julgamos invasão quando perguntam o motivo de não termos avisado da viagem ou do passeio só da família — entenda-se os jovens pais e as crianças. A época da escravidão passou, consideramo-nos modernos, justos e objetivos, mas quando se trata de relacionamento familiar, bem que queríamos que os antecessores tivessem botão de ligar, desligar. Que só falassem quando perguntados. E que se encostassem na parede, quietinhos, distantes e discretos. Que só aparecessem quando convocados. Ou convidados. Cruel? Talvez. Moderno, com certeza.

Volta e meia a saudade aperta quando se tem filhos distantes. Imaginamos como estarão, como distribuirão o tempo nas múltiplas atividades. Se solteiros, dúvidas sobre qualidade de alimentação e sono, cuidados com as roupas se alternam. Se casados: estarão bem? (Ninguém cuida deles como a gente.) Se têm filhos, aí a casa cai. Há recursos tecnológicos, felizmente e, como nos gibis de Flash Gordon, imagens e sons ultrapassam barreiras e podemos vê-los virtualmente. Minimiza a dor da ausência, pelo menos.

Lembra? Houve tempo em que viajar — mesmo que o objetivo fosse visitar filho — era difícil e caro. As distâncias não diminuíram, mas os meios de transporte evoluíram em rapidez, eficiência e preço. A piora está na qualidade de serviços oferecidos: para atender a demanda, conhecida companhia aérea européia estuda a possibilidade de baratear ainda mais o preço dos bilhetes oferecendo nova classe para viajantes: em pé, nos vôos de curta distância. Imagino o diálogo: ‘Você veio a pé?’, e a resposta: ‘Não. Vim em pé!’. Outra queixa recorrente é com relação aos toaletes de terminais aéreos e das aeronaves. Os de rodoviária, que antigamente faziam-nos torcer o nariz, estão muito melhores, comparados aos de antigamente. E levam vantagem sobre os dos aeroportos. Conclusão: pobres, ricos e quase ricos — classes A, B e D se comportam bem no quesito higiene; como a classe C ascendeu e passou a utilizar com mais freqüência as facilidades de voar, concluo que quem mija fora da bacia é ela. Literalmente, aliás. E mais: não demonstra compostura ou ter educação nas lojas, nas filas, nos restaurantes, locais públicos e museus. Ou nas escolhas políticas.

Mas, dizia, qualquer filho longe causa aflição. Única filha morando distante, do outro lado do oceano, mãe do neto de sete anos que faz a cama da avó quando ela anuncia chegada, e grávida do segundo filho, quando diz ‘saudade de você, mãe’ na verdade está suplicando que a mãe vá.

E ela vai. Enfrenta frio local, desconfortos da viagem, sujeira dos toaletes, falta de educação só para ver aquela barriga intumescida, aquele sorriso de antiga menina e a tranquilidade do ser que procurou e fez sua felicidade. De quebra, observa as obras e preparativos dos aeroportos brasileiros para receber os participantes da Copa do Mundo e pensa: ‘Excelente oportunidade para Deus provar que é brasileiro. Se tudo não acabar em tremendo fiasco, nunca mais levo seu nome em vão...’

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br