08 de julho de 2026

Centro absoluto do peito


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Fizemos, dia 28, 189 anos de emancipação política. Orgulho-me desta cidade. Falaria , hoje, aqui, de suas virtudes e dificuldades. Foi aí que recebi, da colunista Lúcia Brigagão, que escreve às sextas-feiras, linhas que só ela sabe escrever, e, ainda por cima, sobre a cidade. Não dá para não publicar. Veja aí:

Dia de aniversário é dia de aniversário e pronto. Compremos o presente, botemos roupa bonita e saiamos à procura de quem está de festa. Quer o convidado tenha oito ou oitenta; o aniversariante cem, oitenta ou nove anos, é hora de parar e comemorar, louvar o positivo; descobrir o negativo e tentar acabar com ele.

Pontos positivos? Tem, sim, a querida aniversariante. Clima invejável, a exemplo. Já foi melhor? Foi, mas noutros tempos: mais mato, verde, árvores; menos represas de água cem quilômetros ao redor. Ruas em declives ora acentuados, ora mansos — Terra das Três Colinas, lembra? - esburacadas, sem calçamento, as águas caiam e rolavam até um dos córregos, também com água limpinha, cheia de bagres. Enchentes? Só depois da era das ruas asfaltadas que, além de aumentar a velocidade das águas que descem, tocam de esburacar, meio mal feitas que são. Falando em ruas, lembremo-nos de carros e motoristas. Péssimos. Frota, capacidade e destreza de motoristas cresceram em proporção inversa. A educação do motorista está deste tamaninho. Já não se vê ninguém parar para esperar alguém de idade descer do veículo, nem que seja na porta da igreja ou do hospital. Acidentes acontecem e os responsáveis atribuem culpa aos pedestres incapazes de voar na tentativa de desobstruir a passagem dos que insistem em vencer a barreira da velocidade. Motoristas xingam, sobreviventes ficam mudos de susto, motoqueiros abusam e ficamos todos com medo uns dos outros, pois a morte pode nos espera ali, na esquina.

Franca podia ter um aeroporto com linhas aéreas operando regularmente. Podia ter mais ônibus nos ligando a São Paulo, a centros maiores. Ou capitais. Mistério insondáveis é o de apenas uma empresa fazendo esse transporte, faz mais de cinquenta anos. Se sou elitista? Jamais. Vou e volto de ônibus para São Paulo. Faz as contas: se o vôo é às 8 da manhã, há que se estar no aeroporto (de Ribeirão Preto) às 7, para check-in. Para cumprir horário, é preciso sair de Franca às 6, e acordar às 5 para preparar. É preciso folga de cinco horas entre o começo da viagem até o compromisso. Tem ainda o tempo de vôo, mais chegada, mais trajeto. De ônibus: preparo-me, pego mala, mochila com laptop, três filmes, livro, palavras cruzadas, telefone com música armazenada, travesseirinho. Viajo nos últimos bancos. Dá até tempo para cochilo. Só não precisava durar seis horas o percurso. A cidade cresceu muito? Demais. Nem no Barão, o mais tradicional restaurante da cidade, as pessoas se reconhecem mais. Franca tem muito feriado? Tem: somos loucos por emendar folgas. O hino da cidade, que ironia, tem letra de Alfredo Palermo, que ensinou Português à maior parte dos escritores francanos, que jamais teve seu nome perpetuado em rua, viaduto ou escola. Injustiça.

A população, estima-se em 350 mil habitantes, cerca de 200 mil economicamente ativos. PIB de US$ 5 mil. Região Administrativa e sede de 23 municípios. Situa-se em planalto de vales profundos, de 950 a 1050 m de altura, escarpas abruptas no nordeste do Estado de São Paulo. Vista do céu tem área de 609 km2. Clima tropical de altitude, inverno seco e verão úmido. Vegetação de cerrado com espaço para sibipirunas, flamboyants, acácias, ipês que se espalham por avenidas e ruas. Em novembro e março, chuva. Ano inteiro: manhãs luminosas; tardes de deslumbrantes espetáculos do pôr do Sol. Posição no coração do nativo; ou do não nascido, mas que queria ter; ou do que queria ter nascido, mas não deu, foi criado aqui, se diz autóctone e não quer ser contestado: centro absoluto do peito. Pode crer.

Luiz Neto e Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalistas - luizneto@comerciodafranca.com.br