Uma mulher é vítima de violência a cada seis horas em Franca. Os números são da DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) e retratam a triste realidade vivida por pessoas de diversas classes sociais, profissões e idades. Somente este ano, até a última quinta-feira, foram registrados na cidade 1.419 boletins de ocorrência por crimes que se enquadram na Lei Maria da Penha - que protege as mulheres vítimas de agressão. Em todo o ano passado foram 1.808 registros.
Os casos variam de ameaça, lesão corporal, crimes contra a honra (calúnia, injúria e difamação), vias de fato, danos e até estupro. Desde janeiro do ano passado, 162 homens foram presos em flagrante por agredir suas companheiras ou mulheres da família.
Muitas vezes, o medo se torna companheiro inseparável de mulheres marcadas pela violência. Em outros casos, as agressões físicas e verbais se tornam constantes e algumas vítimas descobrem uma força incomum. Elas passam a enfrentar os agressores, o que nem sempre é um confronto justo.
Uma metalúrgica aposentada de 51 anos, moradora do Jardim Pulicano, engrossa as estatísticas da DDM. Cansada das agressões do marido, com quem é casada há 32 anos, resolveu denunciá-lo na semana passada. Ela conta que foi ameaçada com uma faca pelo pintor de 55 anos. “Ele pegou a salada com a mão. Minha nora tirou da mesa e ele começou a xingar. Fiquei do lado dela e ele pegou uma faca e saiu correndo atrás da gente”, disse. A vítima conta que, no ano passado, apanhou do marido. “Ele bateu até na minha mãe, uma senhora de 90 anos. Aí revidei. Falei: ‘bateu nela que é como uma criança, agora vai apanhar de mim como adulto’”, completou, inconformada, a aposentada.
O pintor foi preso em flagrante. “Mesmo na presença dos policiais ele falou que vai ‘furar’ a gente”, disse a coladeira de 30 anos, nora do agressor.
A mulher conta que teme a saída do sogro da cadeia. Como a gente vai ficar tranquila com alguém que ameaça? Para ser sincera eu não consigo mais dormir tranquila”, lamentou.
Vivendo com medo dentro da própria casa, por apanhar do marido alcoólatra com frequência, uma mulher que vive em uma cadeira de rodas passou a carregar uma faca escondida embaixo das pernas para se proteger. Há cinco dias, ela levou um soco no rosto e revidou desferindo uma facada no braço do companheiro. “Ele aproveita porque não tenho parentes aqui”, disse a mulher, que estava com o olho roxo por conta da agressão. Apesar dos xingamentos e machucados ela permanece sob o mesmo teto que o agressor. “Vou ter que voltar pra casa. É o único lugar que tenho pra ficar”, desabafou.
Rotina
A delegada responsável pela DDM de Franca, Graciela Ambrósio, disse que casos como este chegam à delegacia todos os dias, uma vez que a implantação da Lei Maria da Penha deixou as mulheres mais confiantes. “A mulher está mais consciente dos seus direitos e do seu valor. Ela está entendendo que não pode sofrer violência. Precisa ser respeitada e não pode ser agredida nem física, nem emocionalmente”.
Segundo a delegada há falta de políticas públicas para que a lei seja cumprida integralmente. “O Centro de Referência da Mulher e a Casa de Apoio são projetos importantes para o pós-crime, para a estruturação da família e até para a prevenção de novos episódios”, completou.
Franca não possui uma casa para abrigar as vítimas de violência doméstica. Elas costumam ficar no Abrigo Provisório. Sem essa proteção, muitas desistem de denunciar os agressores (leia mais ao lado).