09 de julho de 2026

‘Não vou viver só de basquete, mas preciso do basquete para viver’


| Tempo de leitura: 7 min
O jovem francano Luis Felipe Ricci joga basquete desde os cinco anos. É fera nas quadras e fora delas. Ricci é hoje considerado promessa de sucesso no Vivo/Franca

O jogador de basquete Luis Felipe Ricci Maia é uma das principais promessas de revelação no Vivo/Franca. Mesmo assim está cansado de ouvir piadas sobre o fato de ser atleta de destaque no time que tem o pai dele, José Guilherme Calil Maia, na presidência.

Mas Ricci procura dar um revés à situação e usa as piadas e os comentários maldosos como combustível para provar a que veio e os potenciais que tem. Aos 18 anos, e com uma maturidade que chama a atenção, coleciona jogos com a camisa da cidade e da seleção brasileira nas categorias sub-15, sub-16, sub-17, sub-18 e sub-19. Esta última disputada neste ano, em Praga.

Ricci joga desde os cinco anos em escolinhas de basquete, mas se lembra de, muito antes disso, brincar com a bola. Graças ao esporte, Ricci já conheceu 11 países e tem se dedicado para fazer jus à chance que o técnico Lula Ferreira lhe deu. Mesmo ainda novo, o armador já integra o elenco adulto do Franca Basquete.

O mesmo talento com a bola em quadra, Ricci demonstra na sala de aula. O jogador cursa o primeiro ano de engenharia de produção no Uni-Facef (Centro Universitário de Franca). O garoto, porém, teve que tomar uma difícil decisão antes de ingressar na universidade. Foi aprovado em vestibulares pela Federal de Uberlândia, Federal Fluminense e na 1ª fase da Fuvest. Mas a chance de fazer faculdade em sua cidade natal para continuar a carreira no basquete influenciou diretamente a sua escolha.

A opção por cursar engenharia de produção se deu por sua paixão pelos números e por ser uma área que permite contato com as pessoas. “Diferente de outras engenharias, na de produção, valorizamos a relação humana.”

Você é uma das apostas do time de Franca, um atleta em formação que tem a confiança do técnico Lula Ferreira. Como começou sua carreira?
O basquete faz parte da minha vida desde sempre. Meu pai, hoje presidente do time, José Guilherme Calil Maia, é um apaixonado pelo esporte. Foi jogador na juventude, parou para estudar, mas nunca ficou longe do basquete. Aprendi a gostar do esporte e aos cinco anos comecei nas escolinhas. Com 8 anos fazia três modalidades esportivas: basquete, natação e futebol e assim foi até os 11 anos, quando entrei na Aspa (Associação de Pais e Amigos do Franca Basquete) e comecei a participar dos joguinhos de federação. Foi aí que escolhi o basquete e deixei os outros dois esportes. Desde então treino todos os dias e sou grato pela minha escolha. Nunca tive dúvida de que o basquete era o esporte da minha vida.

Além dos compromissos com o basquete você faz faculdade. Como concilia essa rotina com a de um jovem comum?
Como treino em duas categorias (sub-19 e adulto) são geralmente cinco horas de treinos diários e de uma a duas folgas por semana, mas isso muda de acordo com os jogos. A noite faço faculdade de engenharia de produção. Sempre tive muitas atividades, nunca gostei de ficar em casa e isso me ajudou a conseguir manter a rotina que tenho hoje. Fora das quadras tenho uma vida normal como qualquer jovem. Gosto de sair com meus amigos, frequentar festas eletrônicas, jogar videogame e entrar na internet. O segredo é saber equilibrar tudo isso para que nenhuma das atividades fique prejudicada.

Quando você começou, nas ‘clínicas’, já pensava em chegar onde está hoje e jogar na seleção, por exemplo?
Isso foi se tornando realidade aos 14 anos quando fiz minha primeira viagem internacional para jogar basquete e fomos campeões no sulamericano escolar, no Equador. Até então jogava pela escola e pela Aspa. Nessa viagem percebi que era lá que queria estar, que ali era o meu lugar. Depois, as coisas foram acontecendo naturalmente. No ano seguinte do campeonato escolar fui convocado pela seleção brasileira sub-15, depois veio a Copa América e joguei pelo Brasil na categoria sub-16. No campeonato sulamericano joguei na sub-17 e na Copa América na sub-18 também. Esse ano disputei o mundial sub-19, em Praga.

Disso, o que rendeu títulos?
Fui vice-campeão sulamericano sub-15, campeão sub-17, e vice-campeão da Copa América. No mundial ficamos em décimo, mas acho que essa experiência com o basquete me rendeu mais do que títulos. Me rendeu conhecimento. Conheci 11 países que me agregaram uma bagagem importante. Foram oportunidades de ter experiências e conhecer culturas e valores diferentes. Vi, por exemplo, muita pobreza na Colômbia. Já na Europa vi muita riqueza e isso te ajuda a dar mais valor na vida que tem.

Você foi um dos primeiros atletas a receber bolsa-auxílio no time do Sesi, antes de ir para o Vivo. O que fez com o primeiro salário?
Era uma bolsa de R$ 150 e para muitos atletas, em início de carreira, é o dinheiro para o transporte de ir para o treino ou para comprar o tênis. No meu caso guardei e comprei meu primeiro notebook. Me lembro da alegria de comprar com o meu dinheiro algo que queria muito.

Como é ser apontado como uma grande promessa?
Encaro como um desafio, algo que me motiva. Sou apontado como promessa? Então vou treinar ainda mais para melhorar. Estagnar, nunca. Quando você perde ou é criticado funciona da mesma forma, mas ao contrário. Você não quer aquela sensação mais, então dá o seu melhor.

No ano passado você tomou a decisão de ficar em Franca, mesmo sendo aprovado nos vestibulares mais concorridos do País. Como foi isso?
Foi uma decisão difícil. Passei na Federal de Uberlândia, em engenharia de produção, na primeira fase para o curso de economia na USP (ele não foi prestar a segunda fase pois tinha um jogo de basquete no mesmo dia), em administração na FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), em São Bernardo, e na Federal Fluminense, também em administração. Ficava em dúvida porque tinha todo o apoio para seguir carreira no basquete, mas tinha também apoio para fazer carreira acadêmica. Minha mãe é professora e valoriza muito essas questões. Decidi ficar em Franca porque encontrei uma universidade que atendia minhas necessidades, o Uni-Facef, uma chance de jogar no Vivo-Franca, um time de muita tradição, e estou perto da minha família. Encontrei aqui uma estrutura que me convenceu a ficar, mas nada me impede de amanhã tomar uma decisão diferente e ir, por exemplo, jogar em outro país.

Hoje você integra o elenco principal do basquete em Franca. Como foi a primeira oportunidade na área?
Estava no Sesi e meu treinador (Pablo Costa) era assistente do time adulto do Franca basquete. Fui convidado e comecei a participar com o sub-17 e com o sub-19 em seguida. Depois fui integrar o time adulto com a responsabilidade de melhorar. Treinava em três categorias e foram surgindo oportunidades. Quando alguém se lesionava, ia para o time.

Alguns torcedores já fizeram comentários e piadas sobre o fato de você ser jogador no time em que seu pai é presidente. Como lida com isso?
O basquete está no meu DNA e meu pai é o presidente do time e isso é indiscutível, mas falar que ele me beneficiou é errado. Tento ignorar esse tipo de comentário porque me chateia. Treino duro, pesado, me cobro para ser sempre melhor e batalho há anos para estar onde estou. Essas coisas me incomodam, mas não estou aqui para julgar ninguém. Estou para jogar basquete e esses comentários me motivam a melhorar ainda mais, me fazem querer provar que mereço estar onde estou. Até porque já defendi a seleção brasileira em diversas ocasiões e meu pai não é presidente da seleção.

Você participou da campanha do time no Estadual e chegou a iniciar partida como titular por causa das lesões dos jogadores Figueroa (Juan Pablo) e Jeferson Socas. Como foi a experiência?
Foram dois jogos como titular e em ambos senti um frio na barriga porque sei da responsabilidade de representar o time de Franca. O Lula mostrou que confia em mim e acho que consegui corresponder. Esses jogos mostraram também que ainda tenho muito a melhorar.

Um desses jogos foi em Franca, contra o Piracicaba. É diferente jogar aqui?
Muito. O francano vivencia o basquete no seu dia a dia e o resultado positivo ou negativo nas quadras muda a semana do torcedor. Poucas cidades têm essa paixão que existe aqui. A sensação de ver a torcida te apoiando é indescritível.

Como você se imagina daqui a cinco anos?
Cinco anos é um longo período, mas quero continuar no basquete até quando for possível e aliar o esporte à minha formação. Pretendo estar formado em engenharia de produção, trabalhando na área e jogando basquete.