Os jornais tendem a ser globais ou locais? A resposta dependerá do ponto de observação do leitor. A cidade pode ser o mundo para quem prioriza a vida comunitária, respira o ar de sua terra e cultiva as tradições, investindo a sua vida onde nasceu. Mas o mundo pode ser uma cidade para quem se sente cidadão planetário e, independentemente das raízes que nunca se desfazem, se aventura a experiências em outras cidades, regiões e países. O grau de interesse por notícias locais ou globais vai depender, portanto, das escolhas do leitor. Haverá quem encare uma chuva negativamente como sintoma de transtornos para a área urbana ou positivamente como benção para a agricultura. E haverá quem enxergue nela uma tempestade atípica que pode estar associada ao aquecimento global sobre o qual é preciso conscientizar e agir enquanto é tempo.
A sensação de um ritmo mundial aumenta à medida que se difundem as informações sobre a influência dos mercados globais, as inovações tecnológicas que transformam a vida da maioria, a economia interdependente e o contágio de comportamentos entre os povos, num processo cada vez mais rápido e interconectado como numa teia. A internet não é apenas uma tecnologia, é uma estrada de trocas e relações. Mas, apesar de tudo isso, o valor da notícia local não só é preservado como é o diferencial para que as pessoas que se compreendam e atuem no mundo ao seu redor, num planeta cada vez mais complexo e congestionado de informações.
Em 1970, nos memoráveis “Cadernos de Jornalismo” do Jornal do Brasil, Walder de Góis relatou que em Ceder Rapids, Iowa, no oeste americano, o jornal da cidade era mais importante do que o prestigioso The New York Times. Para a época, era uma surpresa aos acadêmicos. Era preciso refletir sobre o que estava acontecendo na imprensa. O motivo, segundo ele, é que “somente o jornal local vive os problemas da comunidade e os reflete, sem desprezo da cobertura nacional e internacional que o acesso fácil da comunicação permite”. Era uma profecia em relação ao que se veria, anos depois, com o florescimento do jornalismo regional brasileiro, a partir dos anos 80.
Veículos de vários pontos do país, editados nas capitais e em centros regionais densamente povoados, investiram em novos parques gráficos, ampliaram a circulação e profissionalizaram as redações e os demais quadros funcionais. Os jornais se apresentaram aos leitores com roupagem nova e conteúdos diferenciados. Desenvolveu-se um novo estilo e uma forma menos provinciana de olhar os fatos. As mudanças vieram com as próprias cidades, que cresceram, incorporaram novas tendências e se tornaram mais complexas. O jornalismo se tornou então fundamental para entender os problemas e as oportunidades locais.
O Interior Paulista é um desses nichos de prosperidade do jornalismo regional. Os veículos que formam a APJ (Associação Paulista de Jornais) são os grandes jornais em suas respectivas regiões. Não apenas os líderes do mercado regional onde estão inseridos, mas os grandes mediadores das comunidades atendidas. Juntos, representam uma expressiva força. A tiragem somada dos 15 jornais chega a 350 mil exemplares aos domingos, equivalente à circulação de apenas um dos jornais expoentes de prestígio nacional. Mais ainda: esses jornais estão inseridos no maior mercado consumidor do País, assim definido desde 2012 pela empresa IPC Marketing. Desde então, o Interior Paulista concentra um potencial de consumo que ultrapassa a região metropolitana de São Paulo.
É impensável nos paradigmas atuais a existência de um jornal uniformemente integrador nacional, como muitos sonharam. Quatro décadas depois da antevisão de Góis, a lei do interesse pela notícia da cidade continua tão verdadeira quanto a da gravidade ou a da oferta e procura na economia. O interesse pelas notícias locais é uma obviedade nas pesquisas com todos os tipos de leitores em todos os lugares.
Wilson Marini
Jornalista - email wmarini@apj.inf.br