08 de julho de 2026

Máquinas da morte


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O drama do sapateiro Flanmiller Garcia da Guarda, que completa hoje 24 anos, e perdeu a perna esquerda em decorrência de um acidente ocorrido na madrugada de domingo, deveria servir de alerta para a grave situação do trânsito brasileiro. O jovem, que teve seu quadro clínico agravado no CTI (Centro de Terapia Intensiva) da Santa Casa de Franca, foi atropelado pelo Hyundai dirigido pelo analista de sistemas Murilo Rodrigues de Oliveira Silva, 23. A polícia informou que o analista, que apresentou uma versão não condizente com a constatação feita pela perícia no local, teve confirmada embriaguez após exame. Seu pai pagou a fiança e ele foi liberado. Este é apenas um dos inúmeros casos em que, diante de uma grave ocorrência de trânsito, uma multa mínima libera o motorista infrator, independente do estrago causado.

Flanmiller hoje luta entre a vida e a morte por causa de alguém que assumiu a direção de um carro sem ter as mínimas condições para dirigir. Nada do que for feito será capaz de lhe devolver a integridade e nem restituir aos seus familiares a tranquilidade perdida na madrugada de domingo. O jovem sapateiro escapou das estatísticas que mostram que o trânsito matou quase um milhão de brasileiros nas últimas três décadas, mas seu estado, infelizmente, ainda é grave.

E acidentes como esse, nos levam a refletir sobre o número absurdo de vidas ceifadas no trânsito e que a legislação ainda não consegue reduzir. Morreram em acidentes de trânsito no Brasil exatamente 980.838 pessoas entre os anos de 1980 e 2011. Neste último ano, o País alcançou a maior taxa de mortes por cem mil habitantes desde que os dados começaram a ser contabilizados. Foram 22,5 mortes por 100 mil habitantes, pico que já havia sido alcançado em 1996, antes da criação do Código Brasileiro de Trânsito, que logo depois que começou a vigorar contribuiu para quedas importantes nas taxas.

Os dados são do Mapa da Violência 2013, acidentes de trânsito e motocicletas, chancelado pelo Cebela (Centro Brasileiro de Estudos Latino Americanos). Como se pode ver, um número equivalente a três vezes a população de Franca (que hoje conta com 360 mil habitantes, de acordo com projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas, o IBGE). Ou seja, a cada década dos últimos trinta e um anos, o número de mortos no País equivale a uma população inteira de nosso município.

Toda esta situação é reflexo de uma legislação ineficiente, cujos mentores não levam em conta a ineficácia da fiscalização, a falta de instrumentos capazes de punir exemplarmente os infratores, a malha viária brasileira totalmente inadequada, veículos inseguros e motoristas e motociclistas mal formados e imprudentes. Mas ainda que estas falhas fossem sanadas, restariam riscos, pois enquanto a conscientização não partir dos que fazem o trânsito, o que já alertamos aqui neste mesmo espaço, não será possível reduzir o número de acidentes, de vítimas e de mortes. Não vão adiantar radares, comandos de trânsito e limitação de velocidade. Deve partir do próprio brasileiro, que se vangloria de driblar leis e normas em todos os setores, uma tomada de posição para que tenhamos um trânsito melhor, mais humano e com menos mortes.

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