Morreu às 2 horas de ontem, no Hospital Regional, o comerciante Thomaz Tardivo, aos 86 anos. Internado desde 4 de novembro, cumpria a 10ª sessão de radioterapia contra um câncer de estômago, diagnosticado há cinco meses. O atestado de óbito registrou parada cardiorrespiratória como causa da morte.
Thomaz tinha círculo de relacionamento construído em quase 60 anos de trabalho, primeiro, em seu bar São João, na Voluntários da Franca, quase esquina com a antiga Estação da Fepasa, e, depois, no bar Minerva, onde, segundo seu filho José Donizete, “criou o conceito de bar sem balcão, que tanto agradou a seus clientes, especialmente radialistas, que se encontravam naquele local aos finais de expediente”. Disse ele que seu pai “resolveu suprimir o balcão, e os clientes passaram a dizer que aquele era um bar do ‘balcão para dentro’, e não ‘do balcão para fora’, como todos os outros”. Ele e os frequentadores se sentavam juntos, e o serviço era feito pelo próprio cliente. Thomaz fazia com que todos se sentissem “em casa”.
Aposentou-se, mas não deixou de trabalhar. Convidado pelo presidente do Clube dos Bagres, Victor de Andrade, tornou-se o “faz-tudo”. Foram mais 20 anos até ser parado pela doença.
Religioso, dedicou grande parte de seu tempo livre às igrejas de São Sebastião e São Benedito. Cuidava da tesouraria de quermesses. Foi durante a existência do Minerva que Thomaz criou as duas atividades que o tornariam, também, personagem folclórico da cidade. Montou um grande presépio que, pela configuração e detalhes, chamou a atenção de várias gerações. Quando fechou o bar e foi trabalhar no Bagres, conseguiu área para que o presépio não deixasse de ser montado. Até ano passado, depois de quase 60 anos de montagens, foi apresentado através da vitrine montada de frente para a rua.
Na mesma época de criação do presépio, Thomaz também iniciou um festejo, no sábado da Aleluia, para “malhar o Judas”. A encenação, inicialmente apenas dedicada à “malhação”, acabou caindo no gosto das pessoas, que se aglomeravam sempre em maior número ano a ano, até a “queima final” do boneco de “Judas” repleto de rojões e bombinhas. Há duas décadas, Thomaz melhorou a cena: passou a vestir o boneco com peças de roupas, cintos, brincos, colares doadas por comerciantes da Estação, e a fazer um “testamento”, deixando cada peça do vestuário a radialistas e jornalistas. A “queima” passou a ser assunto recorrente dos comunicadores. Este ano, já debilitado, teve a recomendação dos filhos para não realizar a ação. Ficou bravo. Montou o boneco e foi para as ruas. No sábado, na presença de seu público e amigos da imprensa, realizou a queima.
Deixou viúva Catarina, após 60 anos de casamento. Do enlace, quatro filhos - Janete, casada com Arnaldo Eleotério; Arlete, José Donizete, casado com Silvana; e Tomás Edson, casado com Ronilda -, cinco netos (Ana Laura, Guilherme, Hugo, Vinicíus e Danilo) e um bisneto, Gabriel. José Donizete, perguntado sobre a manutenção das tradições construídas pelo pai, foi incisivo: “O presépio, vamos doar ao Museu Histórico se houver interesse da instituição, ou a alguém que se decida a conti-nuar armando a cada Natal.” Quanto à “malhação do Judas”, emocionado, disse que “não”. “Isso vai com ele.”
O velório aconteceu no São Vicente. O sepultamento foi realizado no Cemitério da Saudade, 16 horas de ontem, sexta-feira.