Para os sobrinhos é “Nely”, mas gosta mesmo é de ser “Nély”, talvez porque o acento na primeira sílaba torne a palavra mais leve, mais doce, e com ares expectantes: um gesto não acabado, que boia no ar, deixando aberta a ideação de seu destino; um desejo ainda não realizado, antigo anelo que persiste vivo; uma possibilidade - aceno de voos sem horizontes preestabelecidos, evocação de sonho. As oxítonas soam enfáticas, rígidas, acabadas, secas; sem perspectivas de caminhos que se abram às quimeras; sem possibilidades de imaginares, ascenderes, volitares... São palavras terrenas, enraizadas, denotativas.Pois bem, Nely (ou Nély) é minha tia, querida tia, a última, em uma geração que já se pôs a estrear novos caminhos, novas vidas; que já se lançou em voos abertos, infinito afora.Tia Nely (ou tia Nély), não. Gosta deste mundo concreto (e nem por isso menos enigmático, ou menos sedutor), mundo de chão e ar, de água e sal; de planícies e penedos, rios e oceanos. Há mais de nove décadas, dia após dia, inaugura variados espaços, densos e voláteis, reais e oníricos, pelos quais transita com desenvoltura - doce, inquieta, viva, suave, ascendente, espiralada... paroxítona; mas com a força denotativa, com o oxítono vigor da raiz que soube se fixar em solo fértil - frutuoso, florescente; com a harmonia e a beleza da árvore plantada em terra que aprendeu a se elevar aos bons ventos, a azular e a enrubescer aos reflexos vários de muitos céus.
Nely (ou Nély), tanto faz. Ambos os acentos lhe caem tão bem...
Eny Miranda,
médica, poeta e cronista