20 de março de 2026

Origens


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Coisas de personalidade: não tenho medo de cutucar onça com vara curta. Manifestação clara e evidente de aspecto malsão? Idiossincrasia? Não sei. Sem intenção, por vezes insulto e ataco; não raro provoco discussão; polemizo. O espaço que me circunda quase nunca está em repouso. Coisa de personalidade: não sou normal, graças a Deus.

Quando criança, dei trabalho: contavam que a única coisa que me fazia sossegar era ter livro nas mãos, mesmo quando incapaz de ler, ou fazer algum trabalho manual que me entretivesse. Diziam que volta e meia os familiares passavam na Farmácia Normal (esquina da Major Claudiano com Voluntários da Franca) e pediam vidrinhos vazios. Comprava-se lã e linha, goma arábica - que cola branca não existia, me punham sentada na varanda num banquinho e me deixavm ali enfeitando os vidrinhos, colando linhas e lãs em volta deles. Entretia-me horas com a tarefa.

O tempo passou, pouco melhorei, aprendi a escrever, mexo com computador - até bem, para minha geração. Aproveitei as leituras e desandei a escrever. Quando escrevo, fico quieta, mas o teor do que escrevo, volta e meia cutuca — voluntária ou involuntariamente. Hoje nem sei mais se provoco tanto assim ou se acham que provoco tanto assim.

Pois dizia da minha ascendência. Sou metade italiana - avô Maníglia e avó Sansoni; um quarto descendente da TFM — tradicional família mineira, de sobrenome Maia Araújo e um quarto negra, descendente de filho natural de coronel Junqueira — sim, estou no livrão deles — e de filha natural do coronel Cornélio Procópio, sim senhor. Quando conto isso, as pessoas batem palmas, acham o máximo eu ‘reconhecer minha origem’, como dizem, o que me faz crer que ainda são racistas e preconceituosas pra caramba, como se fosse muito lindo da minha parte revelar escancaradamente a procedência. Desconhecem a negra chique que era a bisavó Clara, que só andava de chapéu, luvas, sombrinha de renda e de Ford bigode com motorista. Jamais saberão da altivez do bisavô Sebastião, que só aceitava refeições em mesa com toalha de linho, louça fina, serviço de prata e copo fino de cristal — assim me contaram. Os filhos, entre eles o avô Joaquim e o tio-avô Cláudio Junqueira, eram educados, finos, gentis. Perderam toda a circunstância, mas conservaram a pompa, a nobreza, o orgulho e a delicadeza.

Quando inventaram o feriado da Consciência Negra — 20 de novembro — eu, que já não engolia a história da cota racial para universidades, fiquei envergonhada pelos meus ancestrais, pelo Zumbi dos Palmares e pelos patriotas — não sei de que cor — que aconselham a ‘ficar de olho no calendário porque este ano a data cai numa quarta-feira: é ótimo para viajar, principalmente se você puder emendar com a quinta e sexta-feiras.’ Brancos, negros, amarelos, cor de rosa, vermelhos — todos se beneficiarão com a folga.

O racismo está impregnado na nossa cultura, nas nossas atitudes. É racismo comemorar a data, é racista (por vezes mentiroso) quem reivindica a cota para estudar. É racista quem, mesmo descendente de negros, aplaude e acha o máximo a loira de olhos claros dizer que seu avô era mulato. Discriminação social não acaba com feriado de bajulação do mesmo modo que miséria não acaba com esmola em dinheiro de bolsas ou carteiras.

O que acaba com toda essa pobreza moral é educação de qualidade, é oportunidade de bons empregos, é valorização do bom profissional. Todas — todas — as pessoas têm direitos econômicos, sociais e culturais iguais. (Quase esqueci: cadê o dia da consciência loira? Vilipêndio por vilipêndio, também sofremos.)

Lúcia Helena Maníglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br