Quando se cruza um oceano inteiro a fim de alcançar a outra ponta de terra, não é só um montão de água que vai ficando pelo caminho. Ficam pessoas queridas, nosso lar, nossos costumes, o conforto, a rotina, que é a grande âncora dos dias. É essa a grande graça de se viajar para longe: ficar sem esse monte de coisas iguais e alcançar o diferente em gostos, cores, jeito.
Bem sei que esse espaço me foi cedido sobretudo para que eu falasse de gosto, e eu chego lá, mas foram as cores que teimam em chamar minha atenção. Penso na comida e me vem a cor de um dia, penso nas texturas e me vem aquela luz cremosa, meio preguiçosa que se deita sobre a pele da gente transformando-a em sorvete.
Cheguei ao norte da França em pleno outono e me deparei com uma paisagem que jamais vemos aqui. Não se trata de eleição, nem de comparações, cada um na sua, mas o inusitado faz a vida parar... Conhecia o outono de verdade, mas não conhecia as árvores de folhas amarelo quase fluorescente, portanto, a mata estava assim: amarela, vermelha e verde.
Mas foi, sobretudo, a combinação dos azuis mar e céu que estão a colocar magia nos meus dias. Não quero procurar pelo nome da cor, gostaria de transmitir a sensação. Chega uma hora do dia em que o céu e o mar estão exatamente da mesma cor - a única demarcação é uma indistinta faixa fina. O azul é pálido, metalizado, e a falta de nuances faz com eles pareçam ao alcance da mão, num átimo se poderia nadar no céu, ou voar no mar, pode-se imaginar um solo etéreo ou uma imensa parede que nos levaria até Deus.
Foi nesse cenário que comi pela segunda vez uma das coisas mais deliciosas que existem, pelo menos pra mim. Vieiras, que por lá produzem um prato chamado Coquilles Saint - Jacques, e são um clássico da gastronomia francesa. Trata-se de um molusco que mora em concha, como as ostras, mas sua carne é mais suave e branca. Tem textura de peixe, mas mais interessante. E as conchas das vieiras são lindas, em forma de leque, com cores vivas, são colecionáveis.
São abundantes no norte da Europa, por isso, nem tão caras por lá. O prato normalmente é feito de duas maneiras: salteada com um pouco de manteiga ou levemente cozida em vinho branco. Os temperos são, principalmente, pimenta do reino, sal e um pouco de alho. Tudo com absoluta parcimônia, para que o gosto singular e refinado das vieiras não desapareça.
O acompanhamento desse prato é sempre alguma forma de purê de batatas ou tubérculo que o valha. No meu caso havia dois tipos de batatas e um perfume de bergamota que se anunciou antes mesmo que meu prato pudesse ser visto. E eu nem precisaria dizer, mas estava delicioso.
DICA DA SEMANA
Cará
Vi belos carás no varejão, com bom preço. São deliciosos e subutilizados por nós, mas, sabemos, a liga deles é potente. Por isso, numa fritada caem bem. Pique miúdo aqueles restos de legumes, verduras, cebola, cheiro verde que vão sendo desprezados na geladeira. Rale um cará no ralo grosso, misture tudo, tempere com pimenta do reino e sal, como uma omelete grande, despeje numa frigideira antiaderente e frite dos dois lados.
Ou então faça um pãozinho de cará. A receita é da Neide Rigo:
250 g de cará, 125 g de polvilho azedo, 125 g de polvilho doce, 1 colher (chá) de sal, 3 colheres (chá) de açúcar, 2 ovos, 1/4 de xícara de óleo, fubá para polvilhar. Cozinhe o cará com água até ficar macio. Misture os polvilhos peneirados com o sal e o açúcar e esprema por cima o cará bem quente. Misture bem com um garfo. Amasse com as mãos. Junte os ovos batidos com o óleo. Unte as mãos com óleo e é só modelar e assar.