Espionagem anda em alta. Ao contrário do que todos pensavam, o fim da Guerra Fria não atenuou desconfianças dos órgãos de inteligência em relação a países, governantes e, até mesmo, às pessoas comuns.
De certa forma, parece que a profecia de George Orwell se confirma às avessas. Se por um lado o Grande Irmão (Big Brother) finalmente se estabeleceu, por outro, já não apresenta a voz onisciente e onipresente que a todos assustava. Agora é mais suave e prosaica, timbres menos severos. Além disso, o Grande Irmão agora tem rosto, que não tinha no romance de Orwell (1984). E a face é tranquila e risonha, carregada de promessas e boas intenções.
Simbolizado em Obama, pode-se dizer que agora o Grande Irmão age em prol do bem da humanidade. A espionagem não é para bisbilhotar a vida alheia, saber da vida, de questões emocionais. Para isso já existe o Facebook, Twitter, Instagram. Existe apenas para garantir a segurança do mundo contra terroristas que insistem em levar morte e dor para todos os cantos.
Ora, ora, quanta bondade! É comovente perceber tanta dedicação por parte do povo e governo norte-americano. Sua preocupação com o bem-estar do mundo é antiga. Nós, latino-americanos sabemos bem disso. Mas agora essa preocupação e dedicação se intensificaram ainda mais, mostrando que a bondade dos americanos transborda pelos poros.
Dilma, Merkel ou Hollande não têm do que reclamar. Suas ligações foram grampeadas apenas para o bem de seus respectivos países, já que o terrorismo poderia estar batendo às suas portas.
O Grande Irmão Obama garantiu que não há interesse comercial na espionagem. Nesse sentido não há o que reclamar. Ao contrário, tem-se que agradecer, pois as intenções são as melhores. Mas por via das dúvidas, os mais desconfiados deveriam voltar às comunicações via tambor, nuvens de fumaça e telégrafo, com batidas e caracteres bem cifrados. O resto pode-se grampear.
Maurício Buffa
Professor e consultor de Marketing