20 de março de 2026

Mulheres


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Imprevisível e fortuitamente amigas de longo tempo se encontraram numa rua da cidade. O primeiro momento foi de avaliação física. Elogios para lá (‘Imagine só, estou do mesmo jeito!’), queixas de decadência pra cá (‘Ainda tomo coragem para fazer plástica, tirar essas marcas do tempo!’), a tônica foi a vontade de recuperar em minutos todo o conhecimento da vida uma das outras, entre o longo intervalo de encontro antigo e aquele de agora. Falou-se de filhos, inevitavelmente. Perguntou-se sobre outros familiares, evidentemente. Gabaram-se. Fartaram-se de novidades. Sem tempo para mais conversa, despediram-se com deliciosa sensação de terem acionado a tecla Pause de suas vidas, de terem posto o relacionamento para andar, de terem novamente apertado a tecla retomando suas rotinas, até que o acaso novamente aconteça e novamente tenham oportunidade para um reencontro.

Estão bem resolvidas. Em que pese diferentes atividades que desempenham estão satisfeitas com elas mesmas e esse é o segredo do sorriso aberto que apresentam. A maturidade — que perdoem mulheres de carne durinha e lisinha — é muito gratificante. Carne amaciada por solavancos, tornada saborosa pelos temperos da vida, na fase em que estão perderam a necessidade de urgência. Aprenderam a esperar; sabem que fruto nenhum amadurece antes do tempo; adquiriram alguma sabedoria com relação às relações humanas; dão lições sábias como não criar expectativa com relação ao comportamento de quem quer que seja. Tornaram-se menos ansiosas e a juvenil prepotência cede, mais e mais, espaço para a complacência. Não que a mulher madura se deixou tornar carneirinho manso e teleguiado. De maneira alguma! Ela adquiriu paciência e demonstra nas suas atitudes a experiência adquirida e armazenada nas diversas situações vividas. Diferente das outras mulheres, a mulher madura pode enfrentar espelho, ficar em frente a ele, olhar-se nos olhos, lembrar-se do motivo desta ruga, desta marca, deste vinco, deste fio branco de cabelo e, quando sai, sai abastecida de suas memórias e recordações. A mulher madura tem histórias para contar. Tem milhões de histórias para contar. Ela pode: falar de suas frustrações; louvar suas vitórias; comparar seu desempenho nas múltiplas funções; antecipar resultados; determinar-se o melhor caminho a seguir, apresentar avaliação segura sobre qualquer assunto e, sobretudo, raciocinar muito melhor porque estabeleceu parâmetros dentro dela. Discerne o que é e o que não é importante e descarta tudo que não merece qualquer relevância.

A mulher madura não se atreve a vestir a roupa da moda porque sabe onde estão os limites do bom senso e não mais imita: lança moda, à sua moda. Chega a ser invejada pelas mais moças e sofre com cruéis revides que aludem às suas formas e contornos já meio desfocados. Pobres moças! Jamais imaginam que isso é inevitável, que a juventude não é um período eterno e permanente, que é um privilégio ter chegado ali e que elas mesmas podem não conseguir alcançar tal precioso estágio. A mulher madura já não usa biquinis sumários; não se atreve a botar uma mini que possa mostrar a calcinha; tem que conciliar óculos com os brincos vistosos; não consegue ler cardápio no restaurante se está com lentes corretivas: pesam-lhes os ônus da maturidade. Em contrapartida, a mulher madura anda como se deslizasse e caminha com segurança na trilha que ela escolheu. E ela escolhe. Opta. Ela decide. Lê o que quer ler. Ela busca. Hesita e se permite hesitar. Quando se fragiliza enfrenta sua debilidade tranquilamente. Ela se queixa, mas não se deixa permanecer na banda negativa. Não se lamuria das perdas: vibra com as conquistas. Principalmente, a mulher madura sabe encarar e aceitar a inconstância de tudo, até de si mesma. (Escrito e publicado na década de 90, descoberto na releitura para escolha dos cem textos que eu gostei de ter escrito.)

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, escritora, professora - luciahelena@comerciodafranca.com.br