O episódio em que ativistas soltaram 178 cães da raça beagle que eram utilizados em testes de laboratório pelo Instituto Royal, em São Roque, ganhou as redes sociais, repercutiu em todo o País e em várias partes do mundo e, claro, acendeu a discussão também no Interior Paulista sobre a proteção dos animais de uma forma mais ampla. Jornalistas sabem há muito tempo que matérias com animais “rendem leitura” (ou audiência). A vida animal sensibiliza o interesse de muita gente. Mas agora há um novo ingrediente — o debate sobre a validade de experimentos com animais vivos. Sofrimento e maus-tratos são o foco do ataque dos ativistas.
Pesquisadores nas universidades, por sua vez, alegam que seguem protocolos universais, além da finalidade nobre de desenvolver conhecimento que beneficie a humanidade. Nesse fogo cruzado, o assunto vai para o parlamento, onde cabe elaborar as leis que poderão dar novos parâmetros à questão. É o caso de Jundiaí, onde ganhou força discussão sobre um projeto que tramita na Câmara Municipal prevendo a proibição de testes desse tipo no município sob pena de multa de R$ 5 mil por animal utilizado. O argumento é de que a experimentação é condenável do ponto de vista ético e científico.
O Jornal de Jundiaí, da Rede APJ (Associação Paulista de Jornais), apurou que nenhum órgão público local recebeu denúncias de vivissecção (condutas científicas com o animal vivo, com ou sem anestesia). As reclamações, de oito a 10 por dia, limitam-se a maus-tratos genericamente. O vereador reconhece que desconhece casos de uso de animais vivos na cidade, mas afirma que o projeto pretende justamente coibir a prática. “Sabemos que muitas instituições médicas têm este costume. Caso alguma empresa ou entidade faça isso, se houver a lei, as denúncias irão acontecer e iremos ter conhecimento para punir”, diz Leandro Palmarini (PV).
Mais de 100 milhões de animais mortos no mundo é o saldo anual de experimentos científicos com animais em testes laboratoriais para indústrias e universidades. O dado é da Frente Parlamentar de Defesa e Direito dos Animais na Assembleia Legislativa paulista, conduzida pelo deputado Feliciano Filho (PEN), responsável por uma Comissão Antivivissecção no estado. Animais saudáveis são cortados, queimados, privados de comida e induzidos a estresse em aulas de veterinária, farmacologia, medicina, biologia e cursos ligados a área de biomédicas. O mesmo acontece em testes laboratoriais para indústrias de cosméticos, de produtos automotivos e de materiais de limpeza.
A professora da USP Irvênia Prada afirma que existem métodos alternativos de testes que descartam o uso de animais e que a validade de aplicar experimentos de uma espécie para outra é questionável. Exemplo disso é a talidomida, que ministrada a grávidas na década de 1960 provocou sequelas (como ausência de membros inferiores ou superiores) em bebês.
Polo caipira: A inauguração até 2016 das fábricas das montadoras de veículos Honda, em Itirapina, e da Mercedes-Benz, em Iracemápolis, consolidará no Interior Paulista o “polo caipira das montadoras”, ultrapassando em número de unidades de produção a região do ABC Paulista, berço da indústria automotiva do País, segundo publicou o jornal O Estado de S. Paulo na segunda-feira, 21. Em cinco anos, a área entre Campinas, Sumaré, Sorocaba e São Carlos receberá quatro grandes montadoras, com investimentos de R$ 4 bilhões e a geração de 6,7 mil empregos diretos. A coreana Hyundai iniciou atividade neste ano em Piracicaba e a japonesa Toyota abriu sua segunda fábrica no Interior, em 2012, em Sorocaba.
Wilson Marini
Jornalista - email wmarini@apj.inf.br