Conheci o diretor Fernando Meirelles na apresentação do filme Ensaio sobre a Cegueira, na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Meirelles falou da dificuldade de adaptar o livro homônimo de Saramago (prêmio Nobel de Literatura) para o cinema, do medo de trair a sua obra.
O filme é uma metáfora, um mito moderno sobre a precariedade do processo civilizatório. Algo inesperado pode lançar a civilização contemporânea, aparentemente sólida e poderosa, em colapso. Saramago imaginou uma “cegueira branca”, algo que se propaga pela humanidade, deixando todos cegos. Apenas uma mulher, a “mulher do oftalmologista”, mantém a visão, e acompanha o marido até uma espécie de campo de concentração, onde são detidos os primeiros a perderem a visão, de modo inexplicável do ponto de vista médico.
Todos se tornam Adão e Eva, sem nome, sobrenome, sem função social: o médico que não pode exercer medicina; a mulher do médico, que não é tratada como mulher pelo marido; o primeiro cego, o japonês; o velho negro com uma banda em um olho; a mulher de óculos escuros. As raças - amarela, branca, negra - não se reconhecem pela cor da pele.
Como espectadores somos voyeurs, observadores participantes, como a
“mulher do médico”. Meirelles diz ser essa a essência do cinema. O diretor torna a tela branca leitosa, em várias cenas, para que possamos sentir e pensar nessa cegueira branca, cuja origem não é explicada. O grupo social perde a referência comum, a visão, e o caos se instala nas relações da pessoa com ela mesma e com os outros. A barbárie emerge quando as normas civilizatórias são ineficazes: o desespero turva a razão, e a condição humana se mostra em sua frágil precariedade. O desamparo individual, na luta pela sobrevivência, espraia ondas de terror - instala-se um desamparo social, dando origem a perversões e abusos de poder.
Apenas a “mulher do médico” mantém a visão e se torna a líder do grupo. É o seu olhar (não exatamente os seus olhos) que lhe permite liderar, com um novo tipo de “visão”. Ver com olhos éticos a degradação do grupo social a torna testemunha da violência e da desconsideração por si e pelo outro, escondidas por fina camada civilizatória. Como retornar à civilização, depois de tal experiência? A protagonista vê o que as pessoas fazem quando não se sentem vistas pelo próximo (inclusive o marido). Enxergar é motivo de angústia, o peso do mundo fica sobre seus ombros, na terra de cegos. Há esperança na persistência, na chama de humanidade que ela mantém acesa, apesar.
A quem tem estômago fraco, aconselho ver o filme antes de ler o livro. O roteirista e ator (no papel de ladrão), o canadense Don McKellar, disse que a preocupação de Saramago era que o filme mantivesse o caráter alegórico, “um sumário do milênio”, e assim fez Meirelles.
Humanidade é qualidade não redutível a nome, sobrenome, função exercida na sociedade. Se as condições de sobrevivência são ameaçadas, o ser humano pode voltar a se comportar como um bebê, movido pelo puramente sensorial, como um animal.
O filme interrompe o excesso de visibilidade a que somos expostos, hoje, que, paradoxalmente, nos cega para os afetos, para os elos entre as vivências que constroem histórias, raízes, relações afetivas que permitem empatia, compaixão. Domínio da natureza, avanços tecnológicos não implicam desenvolvimento, humanamente falando. Na metáfora do filme, o que pode acontecer é uma regressão a um estado primitivo - criaturas sem rosto, desenraizadas, sem olhos para o invisível essencial.
Serviço
Cinema e Psicanálise
Filme: Ensaio Sobre a Cegueira
Data: 19 de outubro
Horário: 14h30
Local: Franca - rod. Tancredo Neves, saída para Claraval Km 2.
Comentários: Alexandre M. Mello, psiquiatra pela SBP de Ribeirão Preto.