Estava eu a reduzir uma cebola a fatias transparentes, o alho idem, os tomates a nus, estava eu a pensar sobre a graça desse momento que nos une, nos nutre, nos apazigua. Sou subitamente levada a procurar um livro que comecei a ler e não acabei. Abro as primeiras páginas, olho o molho de tomates, há muita água por secar, posso recomeçá-lo.
Meu espanto permanece fresco. As memórias do Imperador Adriano, escritas pela grande Marguerite Yourcenar, são um exercício saudável para a constatação da imutável natureza humana. Tais memórias são de um homem que viveu entre 76 d.C. e 138 d.C.. E é incrível ouvi- lo dizer sobre sua alimentação, sua saúde, as consequências do jejum, a possibilidade do vegetarianismo. “Que ninguém me tome por um vulgar renunciador: uma operação que tem lugar duas ou três vezes por dia, e cuja finalidade é alimentar a vida, merece certamente todas as nossas atenções.” E mais. “Comer um fruto é fazer entrar em si mesmo um belo objeto vivo, estranho e nutrido como nós pela terra. É consumar um sacrifício no qual nós nos preferimos ao objeto. Jamais mastiguei a crosta do pão das casernas sem maravilhar- me de que essa massa pesada e grosseira pudesse transformar-se em sangue, calor e, talvez, em coragem.”
É espantoso que um homem, detentor do maior poder daquele mundo, pensasse em regramento diante dos maravilhosos manjares que lhe eram servidos. E que ao comer estivesse nutrindo a vida que animava aquele corpo e mais: que entendesse que esse mesmo corpo guardava a herança de cada alimento.
Relata Adriano que seu médico, Hermógenes, jamais lhe corrigira a dieta, afinal, se alimentava mais de frutas, assados de caça, vinho e água. Apenas um detalhe lhe fora recomendado: comer mais devagar.
O banquete romano foi algo execrado pelo imperador, que se dizia sóbrio por pura volúpia. Não era próprio da época que um homem rico se vangloriasse de ser comedido à mesa. Empanturrar-se significava mais poder. “Muitas vezes, valendo- me de alguns frutos secos, ou do conteúdo de um copo lentamente absorvido, tentei evitar que meus convidados percebessem que os pratos elaborados por meus melhores cozinheiros o eram sobretudo para eles.”
Mas são as suas considerações sobre os animais que mais impressionam. Ainda que não fosse vegetariano, o imperador refletia que talvez nosso horror ante os animais assassinados estivesse condicionado ao fato de que nossa sensibilidade pertencesse ao mesmo reino dos animais. Para melhor compreender a beleza dessas memórias é preciso lembrar que Adriano é anterior ao cristianismo. Viveu num tempo em que deuses não mais existiam, Cristo não existia ainda, o homem reinava soberano, o que não o impediu de pensar, mesmo nos animais.
DICA DA SEMANA
Aïoli
Já lhes falei desse molho clássico, meio fora de moda, é verdade, mas se bem feito, sempre delicioso. É feito a moda da maionese, mas tem diferenças. Primeiro, o elemento oleoso não é óleo, mas azeite. E muito alho. Não é para ter medo do gosto forte de alho, só faça se gostar de alho.
A receita antiga manda a gente bater num pilão com colher de pau, mas dá para fazer com um bom mixer ou liquidificador, contanto que a tampa fique aberta, como com a maionese. Os ingredientes são só: alho, gema e azeite. Para oito pessoas, calcule 16 dentes de alho, 3 gemas grandes e quase 500 ml de azeite. Pile o alho até virar uma pasta, acrescente as gemas e uma pitada de sal. Comece a bater pingando o azeite, quando começar a endurecer começa-se a colocar o azeite em forma de fio fino. O ponto do aïoli é mais duro que a maionese, quase sólido. Caso o creme desande coloque outra gema e volte a bater.