Foram anos sofrendo com uma dúvida que a atormentava. A dor ficava maior sempre que outubro se aproximava. Mãe de 12 filhos e avó de 20 netos, Euripa Aparecida Câncio, uma dona de casa de 58 anos, não sossegou até que conseguiu convencer sua filha Ana Paula Câncio, de 27 anos, a pedir um exame de DNA do corpo de seu neto Jonathan Matheus, que teria morrido aos oito dias de vida, quando estava prestes a ter alta da Santa Casa de Franca.
Jonathan nasceu no dia 11 de outubro de 2004. Prematuro de sete meses e quinze dias, precisou ficar na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) da Santa Casa de Franca. No dia em que receberia alta, sua mãe foi avisada por telefone de sua morte. Coube a Euripa a tarefa de reconhecer o corpo. “Assim que tirei o lençol, vi que não era o meu neto, mas quando questionei o médico, ele me respondeu me mostrando um monte de exames que eu não entendia nada. Me fez acreditar que estava ficando louca.”
A criança acabou enterrada na manhã seguinte no Cemitério Santo Agostinho. Não houve velório. Passado o turbilhão provocado pela notícia da morte, Euripa não esqueceu as diferenças que percebeu entre o bebê enterrado e o seu neto. Decidiu que não podia ficar calada. Anotou tudo e procurou sua filha. Abalada e em depressão, Ana Paula não quis acreditar no que a mãe dizia e se recusava a tomar qualquer atitude.
Por anos, Euripa insistiu com a filha e o genro para que fizessem um exame de DNA. Procurou advogados e a Defensoria Pública, mas sem a autorização de Ana Paula nada pode fazer. Durante seis anos, todo mês de outubro, a avó voltava ao assunto. Até que em 2010, quando os ossos do bebê seriam retirados do túmulo para serem levados ao ossário, finalmente Ana Paula resolveu esclarecer os apontamentos feitos pela mãe e acionar a Justiça.
A autorização para o exame usando os ossos do recém-nascido morto veio no final do ano passado. O exame foi realizado em fevereiro de 2013, na Faculdade de Ciências Biomédicas da Unesp de Araraquara. Em julho, um laudo emitido comprovou que as desconfianças de Euripa tinham razão de existir. O bebê enterrado realmente não era seu neto. Desde então ela tem ajudado a filha a encontrar seu verdadeiro filho.
Quem conversa com a dona Euripa, como é chamada por vizinhos, não imagina que aquela senhora frágil tem tanta determinação dentro de si. Euripa nasceu em Restinga, se mudou para Franca ainda muito nova, aos 4 anos. Aqui casou-se cedo com o caminhoneiro José Roberto Câncio, 62 anos.
De poucas palavras, voz calma e baixa, ela dedicou sua vida a cuidar dos filhos e netos. Em uma casa simples do Jardim Santa Barbara, sonha agora com o dia em que encontrará Jonathan. “Não vou falar nada. Quero apenas abraçá-lo.”
Como foi a gravidez da Ana Paula?
Foi tranquila. Ela era muito nova, tinha 18 anos e o Jonathan foi seu primeiro filho. A gente estava muito feliz, todo mundo. Sempre ia com ela nas consultas médicas. O bebê não tinha problema nenhum.
Era uma gravidez saudável e sem problemas, por que então o parto foi prematuro? O que houve?
Não houve nada de especial. No meio da semana, acho que era uma quarta-feira, a Ana começou a sentir as dores do parto. Ainda não era a hora. Mas como eram muito fortes, resolvemos ir com ela até o Pronto-socorro. O médico disse que ela estava com dilatação e que o bebê poderia nascer a qualquer momento. Ele resolveu internar na Santa Casa. O Jonathan só nasceu no sábado e foi por cesárea. Era um menino forte, não teve problemas para respirar e seus exames foram bons. O pediatra disse que ia colocar ele na UTI só para ganhar peso e que logo ele receberia alta.
A senhora estava com a Ana Paula no hospital quando o Jonathan nasceu?
Estava sim e, depois que ela recebeu alta e o Jonathan teve que ficar, fui visitar meu neto todos os dias. Foram oito dias. Pegava meu neto no colo, ficava olhando para o rostinho dele. Conheci meu neto, convivi com ele.
E como recebeu a notícia de sua morte?
Foi uma surpresa horrível. No dia em que ele “morreu”, dia 19 de outubro, não fui ao hospital. No dia anterior, o médico tinha dito que ele receberia alta, então, pensei que pudesse encontrar com ele mais tarde. A Ana Paula foi sozinha. Me ligou chorando, pedindo para que eu e o pai dela ir para a Santa Casa. Não estava entendendo o que tinha acontecido com o Jonathan porque ele estava bem.
E o que houve quando a senhora chegou à Santa Casa?
Vi minha filha passando mal. O marido dela me pediu que fosse ver o bebê porque ele iria socorrer a Ana. Umas enfermeiras me levou para uma sala onde ficam os mortos e me mostrou uma maca coberta por um lençol. Quando puxei o lençol e olhei aquela criança, vi que não era o meu neto. Não era de jeito nenhum. Chamei o médico que estava do lado de fora e expliquei para ele que aquele não era o filho da Ana. Ele me disse que estava enganada, que deveria ser a emoção. Me trouxe um monte de papel de exames e me dizia que eram do meu neto. Mas meu neto não tinha feito aqueles exames. O médico não me ouviu. Disse que quando ficasse calma de novo ia ver que estava errada. Quando contei para o meu genro, ele me disse que era realmente o Jonathan. A Ana Paula também não acreditou. Todos estavam muito abalados. Ninguém conseguia pensar direito naqueles dias.
E o que fez a senhora ter tanta certeza de que aquela criança que viu morta não era o seu neto?
Para começar, aquele bebê era branquinho. Meu neto não. Meu genro é negro. Minha filha é morena clara. O Jonathan não era branco. Depois, o meu neto não tinha cabelo. Aquele bebê era cabeludinho. Tinha até pelinhos nos braços. O Jonathan não. Meu neto tinha engordado, ia receber alta. Aquele bebê era magrinho, tinha um corte para colocar tubo na garganta. Não era o meu neto. Tinha certeza.
E passada a emoção do enterro, a senhora não pensou em voltar à Santa Casa?
A gente voltou lá uns 20 dias depois. A Ana Paula ainda estava muito abalada. Só chorava e resolvi ir. Conversamos com uma assistente social. A gente queria entender o que havia acontecido com o Jonathan, por que ele estava saudável e, do nada, havia morrido. Também falei das minhas desconfianças. Ela, então, nos levou a uma sala onde haviam três advogados. Eles disseram que o Jonathan era prematuro e não resistiu, que a gente devia aceitar a morte dele. Queriam que a gente fosse a um psicólogo para nos tratar. Mas não estava louca. A Ana Paula se convenceu de que realmente o filho havia morrido e não quis mais tocar no assunto.
Mas a senhora não esqueceu...
Não. Sempre, em outubro, dava um jeito de conversar com ela. Pedi muito para que ela procurasse um advogado para pedir o exame de DNA. Ela achava que era loucura minha.
E quando ela aceitou seu pedido?
Uns cinco, seis anos depois da morte do Jonathan, fui ao cemitério e uma moça que cuida de lá me procurou para informar que os ossos dele seriam retirados do túmulo. Fiquei desesperada. Voltei para casa e tive uma conversa séria com a Ana. Pedi para ela fazer isso por mim. Não queria morrer com essa dúvida e ela me ouviu.
E como foi esperar pelo resultado do exame de DNA?
Você não vai acreditar, mas para mim foi tranquilo. Sabia que não era o meu neto enterrado ali.
O que a senhora sentiu quando soube do resultado comprovando suas suspeitas?
Como te disse, já sabia. Não fiquei surpresa. Me emocionei por ver a Ana Paula emocionada. Mas dentro de mim, no meu coração, já tinha essa certeza.
O que a senhora acha que aconteceu ao seu verdadeiro neto?
Uma vez, assim que a Ana começou o processo na Justiça, nós fomos à Santa Casa buscar os prontuários do Jonathan. Uma enfermeira veio nos atender e disse: ‘Eu lembro de vocês. Vocês são a família daquele bebê do Jardim Tropical que morreu’. Minha filha falou que ela estava se confundindo que o bebê morto era do Jardim Aeroporto. A enfermeira olhou no computador e disse que não, que era do Tropical. Quando comecei a perguntar mais algumas coisas, ela ficou apavorada. Não falou mais nada e chamou um médico que entregou para a gente o prontuário. Então, acho que meu neto pode ter sido trocado com este outro bebê do Tropical. Mas não temos certeza de nada. Esse é o problema.
A senhora chegou a procurar essa família do Tropical?
Não, a gente tentou conseguir o endereço, mas a Santa Casa não quis fornecer. Agora está tudo nas mãos da Justiça. O advogado disse que temos de esperar.
A senhora acha que vai conseguir encontrar o Jonathan? Ele deve estar um garoto. Fez nove anos na sexta-feira...
Tenho fé em Deus. Meu coração me diz que sim. Ainda vou poder ver meu neto. Vou reconhecê-lo. Não esqueço aquele rostinho. Não tem um dia em que não pense nele. O mais difícil nesta história toda é não saber onde ou como ele está. A gente não quer tirar o filho de ninguém, não quer tomar ele da família que estiver criando meu neto. O que quero e a minha filha também é conhecer meu netinho. Poder abraçá-lo. Ele vai ter duas mães e dois pais.
Se esse encontro acontecesse hoje, agora, o que a senhora diria para o Jonathan?
(Fica pensando uns três minutos) Não diria nada. Apenas abraçaria o Jonathan. Vou deixar a Ana Paula falar o que quiser para ele, porque ela é a mãe. Ela é a mãe, né? Só quero saber que ele está vivo, feliz e bem. Para mim, já vai bastar poder dar um abraço nele.