Até o meio-dia de sexta-feira, 4, mais de 100 deputados e dois senadores haviam comunicado a troca de partido à Secretaria-Geral da Mesa da Câmara e do Senado. O prazo para os que querem concorrer nas próximas eleições terminou neste sábado, 5. A decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) considerando o mandato como propriedade do partido, permitindo que ele reivindique a vaga caso um dos seus integrantes migre para outra sigla, conseguiu fazer arrefecer este troca-troca, mas o elevado número registrado mostra que o sistema político partidário continua o mesmo: não há ideologias ou programas que direcionam os seus membros. Há políticos que já se abrigaram sob diversas siglas que, a princípio, deveriam ser antagônicas -- e já o foram tempos atrás. Hoje, impera a lei do balaio de gatos, todos juntos e misturados.
No Brasil, não há mais como determinar partidos como de direita, de centro ou de esquerda. Este sistema enlouquecido -- e enlouquecedor para o eleitor mais esclarecido -- não permite que se saiba para onde vai remar qualquer destas siglas. Criam-se legendas ao sabor da situação. No final, fica-se sem saber para que lado a banda toca. O mais estranho é que a situação acaba sendo encarada de forma natural.
Para se ter uma idéia da barafunda que se tornou a organização político-partidária no Brasil, exemplos não faltam. É o caso do senador José Sarney, fortalecido durante a ditadura sob as asas da Arena (Aliança Renovadora Nacional) governistas se abrigue no mesmo PMDB (Partido do Movimento Democrático Nacional, que sucedeu ao oposicionista MDB que resistiu à ditadura) que o também senador Pedro Simon, ainda hoje uma voz contra os desmandos e a corrupção (o mesmo se aplica ao senador Jarbas Vasconcelos). E o que dizer da presidente Dilma Rousseff, petista recente (mas uma perseguida política durante a ditadura dos anos 1960-1980) nomear indicados por nomes como Fernando Collor (PTB), Paulo Maluf (PP) e o próprio Sarney?
Durante a semana, o troca-troca causado pelo fim do prazo para filiação partidária de quem pretende se candidatar no ano que vem, determinado pela Lei Eleitoral, foi condenado em discursos de vários parlamentares e reacendeu as discussões sobre a necessidade de uma reforma política. Da forma como está, reconhecemos todos, não pode continuar. Muitas das siglas brasileiras (inclusive as criadas recentemente) servem hoje apenas como legendas de aluguel, que usufruem da verba destinada a cada um por lei, além de realizarem um verdadeiro leilão dos minutos a que têm direito no horário político eleitoral.
O que não se pode é continuar da forma como está. A fidelidade, reconhecida pelo TSE, é o ítem menos pertinente quando se fala em filiação partidária. Há outros motivos -- e alguns escusos -- que contam mais nesta hora. Por isso, embora não exista grande interesse de nossos legisladores, a necessidade de uma reforma política ampla e renovadora, que permita ao eleitor brasileiro saiba de antemão o que cada candidato, em razão do programa de sua sigla, defende.