08 de julho de 2026

O Brasil e a espionagem


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A presidente Dilma Rousseff conseguiu o que queria: em seu discurso de abertura da 68ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), ontem, em Nova York, chamou a atenção do mundo para as suspeitas de que os Estados Unidos teriam praticado espionagem eletrônica contra cidadãos brasileiros, ela própria incluída. E foi mais longe ao deixar claro que há fortes suspeitas de que o alvo dos EUA eram informações econômicas e estratégicas (a Petrobras teria sido um dos alvos daquilo que Barack Obama chama de “coleta de dados”, mas não passa de espionagem pura e simples).

A fala de Dilma Rousseff repercutiu no mundo todo e já na tarde de ontem os sites de grandes veículos de imprensa do mundo (como o inglês The Guardian, o espanhol El País e a norte-americana CNN, entre muitos outros) destacavam as duras palavras da presidente brasileira. Para The Guardian, o discurso foi “furioso” e um “desafio direto a Obama que aguardava ao lado para discursar em seguida”. Além disso, a reportagem do jornal (que publicou boa parte das denúncias de espionagem do governo norte-americano ao longo dos últimos meses) mostra que a relação entre Brasília e Washington pode ser, até agora, o maior problema gerado pelo vazamento de documentos por Edward Snowden.

Depois de ameaçar os EUA e cancelar a visita que faria a Barack Obama em outubro pela falta de explicações sobre a espionagem — o presidente norte-americano respondeu como o ex-presidente Lula no auge do mensalão, afirmando que não tinha conhecimento do assunto —, Dilma transmite a indignação brasileira ao mundo e acaba capitalizando para si as consequências positivas que o “imbróglio” pode trazer. Num ano pré-eleitoral, o discurso da presidente na ONU também deverá ter grande repercussão por aqui, por sua defesa da soberania nacional. Ela afirmou, claramente, que as práticas dos EUA ferem o direito internacional e “afrontam os princípios” que devem reger as relações entre nações amigas.

Dilma Rousseff tenta afastar a imagem de subserviência a potências como os Estados Unidos. Desta vez ela conseguiu, mas isso não deve apagar a falta de reação igualmente firme quando o País é afrontado pelos “muy” amigos Bolívia, Venezuela, Cuba ou países africanos governados há décadas por déspotas. Assim como seu antecessor Lula, Dilma fecha os olhos e faz vistas grossas à manipulação a que estão sujeitos os povos destas nações, prefere relevar a falta de liberdade e faz de conta de que inocentes não são presos pelo simples fato de discordarem do governo. Isso sem falar das expropriações inconsequentes.

Espera-se que, agora, embora a soberania brasileira não tenha sido atacada, a presidente passe a buscar o equilíbrio dos pratos da balança. Porque o que causa estranhamento é que as reações do Planalto ainda sigam a reboque de posições ideológicas que não têm mais razão de ser, pelo menos nas últimas décadas. Defender os direitos dos cidadãos de viver em liberdade, sob democracias consolidadas, é atitude meritória. Então, o governo brasileiro deveria adotá-la, também, para deixar clara a sua posição.

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