Dois ou três dias na cidade de Mendoza, podem apostar, seria fabuloso. Primeiro para viver sem pressa, depois conhecer e, se puder, hospedar-se no fantástico Hotel Hyatt de Mendoza, e claro, conhecer as vinícolas, e beber o que de melhor se pode beber em toda a América. E por fim, já que estamos sonhando, jantar no Francis Mallmann.
Há lugares que se colam a pele da gente, encontram um jeitinho de alojar na mente ou na alma e podem reparar: um toque de estranheza normalmente é benéfico. Lembro-me que custamos achar o endereço, chovia uma chuva de luzes amarelas e paralelepípedos brilhantes. Lembro-me de minha filha ainda bem pequena, correr em minha direção deixando atrás de si um enorme corredor ladeado por poltronas muito vermelhas e muito chiques. A comida dele é maravilhosa, o atendimento caloroso, os pães: testemunhas de um forno excepcional e assim permanecem, conforme me assegurou o casal André Martins e Julieta Passeri.
O prédio do restaurante por fora é simples, mas o interior é de tirar o fôlego. Também pudera, o local foi construído em 1884 para abrigar a bodega Escorihuela, por isso a comida de Francis está umbilicalmente ligada aos vinhos de Mendoza e faz a eles reverência. Hoje o prédio do restaurante abriga também a bodega Caro, concebida por duas lendas do mundo do vinho: Eric Rothschild e Nicolás Catena Zapata.
E o caráter do chef: singular, o prestigiado Francis Mallmann redigiu uma carta e a entregou a comissão daquela revista que publica todo ano o ranking dos melhores restaurantes, a The World’s 50 Best, bem como o ranking na América Latina. Ele se demitiu como jurado e como restaurante participante, mesmo sendo o 7º da lista. Segundo ele, um desabafo que vinha segurando há anos. Não aguenta mais tanta perda de tempo com encenações e congressos inúteis e politicagem desmedida. Disse que não compactuará mais com a culinária “arte” em detrimento do romance.
Colei aqui um pedaço da carta, em sã consciência não se pode discordar:
“Vejam: eu cozinho há 40 anos. Como sabem, cozinha é um romance com ingredientes, espaço, serviço, timing e silêncio. Observo sentimentos contrários em tantos de meus colegas que estão tão preocupados com os prêmios que passam o ano fazendo lobby perante o eleitorado, pulando de conferência em conferência e, na minha opinião, desperdiçando tempo valioso e distanciando-se dos reais valores que fazem um restaurante.
(...) Arte é um pensamento intelectual, e comida e vinho têm mais a ver com os sentidos e a partilha. Comida e vinho fazem- nos mais aguçados, espirituosos. Só aí podem estimular nossos pensamentos e melhorar nossa comunhão com colegas, amigos, amantes”.
DICA DA SEMANA
Suflê de chocolate
Suflê não é difícil de se fazer, o chato é acertar que eles fiquem prontos na hora que se quer. Lembrando-se que o tempo que o forno leva para assar um suflê não será o mesmo para assar 10.
A receita é da Nina Horta: 2 pãezinhos franceses molhados no leite, pode ser pão novo. 180 g de chocolate em pó - se puder, use o orgânico, 150g de manteiga amolecida, 6 ovos separados, 1 cálice de conhaque, açúcar a gosto, mais ou menos 1 xícara.
Antes de tudo: ligue o forno, bata as claras em neve e unte um refratário com manteiga.
Bata a manteiga, o açúcar e as gemas até ficar claro e fofo. Acrescente o pão espremido e o chocolate em pó e o conhaque, bata novamente para ficar homogêneo. Junte as claras em neve delicadamente. Asse em forno médio por 30 minutos. Bata um pouco de creme de leite fresco até ponto chantily e sirva ao lado do suflê quente.