09 de julho de 2026

Do capim mimoso para o mundo


| Tempo de leitura: 7 min
Alex Reis, baterista de Franca, é o único brasileiro a integrar um dos espetáculos do famoso Cirque du Soleil

Início dos anos 80. O baterista que tocava em tradicional bar de Franca não pôde se apresentar. Um menino de apenas 11 anos, que começava a chamar atenção pela habilidade com as baquetas, foi substituí-lo. O público gostou. O precoce artista levou para casa o seu primeiro cachê. Animado com o dinheiro recebido, decidiu viver da música. Sonhou em se apresentar para grandes plateias. Em suas viagens de criança, imaginou-se percorrendo o mundo com sua ‘batera’.

Alexandre Reis Rodrigues Soares cresceu. Tocou na noite, integrou bandas de ritmos diversos, dividiu palco com cantores famosos e deu aulas. Há três anos, foi convidado para integrar o seleto grupo de artistas do badalado Cirque du Soleil, companhia de entretenimento sediada no Canadá.

É o único brasileiro entre os 119 integrantes do espetáculo Dralion. Realizou o sonho de criança. Percorreu cerca de duas dezenas de países e mais de cem cidades.

Na semana retrasada, de férias em São Paulo, antes de embarcar para uma turnê pelo Qatar, Líbano, Grécia, Itália, Suíça, Espanha e Portugal, Alex Reis, 41, falou com o Comércio e contou detalhes de sua trajetória.

Qual sua relação com Franca?
Nasci em Santo André, mas fui criado em Franca desde os meus seis anos. Meus pais são de Franca, minha esposa, Raquel Indiano, filha do doutor Cleomar (Borges, médico), é daí, meus filhos nasceram em Franca. Irmãos e tios continuam na cidade. Comecei a viajar aos 15 anos tocando com artistas, mas meu ponto sempre foi Franca. Sempre que possível, estou na cidade.

Como você iniciou a carreira?
Comecei a tocar muito cedo. Me formei no conservatório Pestalozzi. Fui o primeiro matriculado no curso de bateria que teve na escola com o professor Nélson Gonçalves. Lá, fiquei cinco anos. Me lembro que quando ganhei meu primeiro cachê tinha 11 anos. Toquei com muita gente na cidade. Depois, fui para o Rio de Janeiro tocar numa banda de heavy metal. Retornei após dois anos e fui tocar sertanejo. Cresci numa família de folia de reis. Sempre ouvimos muita música em casa. Ouvia e tocava de tudo.

Onde foi a apresentação que rendeu o seu primeiro cachê quando ainda era criança?
Tinha um bar em Franca que se chamava O Belo Arraial do Capim Mimoso, que ficava no Centro, ao lado da antiga cadeia. Lá tinha um cantor que se chamava Romualdo. O baterista que tocava no bar era o grande Raul de Barros, que faleceu há poucos anos. Na década de 80, quando eu tinha 11 anos, fui substituir o Raul. Foi quando ganhei meu primeiro cachê. Dali para frente, decidi que queria ser músico.

O menino cresceu e foi em busca do sonho. Com quais artistas você já tocou ao longo da carreira?
Gravei e trabalhei com muita gente na noite. Toquei com bandas diversas. Também dei aulas em Franca de 1987 até 2010. Entre os artistas mais conhecidos estão Fábio Júnior, Gian e Giovani, Paulo Ricardo, Jair Rodrigues e Sá e Guarabyra.

Como surgiu o convite para ingressar no Cirque du Soleil?
Costumo dizer que o Cirque foi reflexo do trabalho de mais de 30 anos tocando bateria. Muita gente passou a me conhecer depois do Cirque, mas para chegar até aqui foi uma vida inteira de dedicação. Na verdade, eles me encontraram em São Paulo. Estava atuando bastante aqui. Estava muito bem. Não fui para o Cirque porque estava mal, estava atarefado até demais. Mas, era uma coisa completamente diferente do que já havia feito. Estava no mais alto nível dentro do que minha profissão oferecia no Brasil. Em 2007, houve uma reunião com um dos recrutadores de músicos do Cirque. Eram 150 participantes que haviam sido indicados. Gostei muito do que vi e fiz minha inscrição. O banco de dados deles é muito forte e reúne cadastros de todas as áreas de entretenimento.

Você começou a trabalhar com eles de imediato?
Fui chamado para algumas audições fora do Brasil, mas continuei trabalhando aqui com outras pessoas. Em 2009, me convidaram para um espetáculo, mas tinha contrato fechado com outra companhia e não podia aceitar. Esta primeira oportunidade passou. Em maio de 2010, foi feito novo convite e assinamos o contrato. Em agosto, já estava em Montreal (Canadá) ensaiando para esta turnê em que estou.

Como é a sua participação no espetáculo?
Muitas pessoas no Brasil não têm noção do que é a companhia. O Cirque du Soleil existe há 28 anos. É uma companhia que possui 19 espetáculos com temáticas diferentes. Muitos destes espetáculos são permanentes e ficam em cidades turísticas, como Las Vegas e Orlando. Também há atrações que ficam em tendas, uma coisa mais nostálgica do circo mesmo, e as que viajam para se apresentar em arenas. O espetáculo em que estou se chama Dralion. O nome é derivado do dragão, que representa o Oriente, e do leão, que representa o Ocidente. A temática é a mistura entre o circo ocidental e o oriental. Durante dez anos, o espetáculo foi de tenda. Quando entrei, estava sendo feita uma reformulação para que fosse para as arenas que são maiores. O show ficou mais longo. Apenas dois novos músicos foram contratados. Um percussionista e eu.

Quantos artistas formam o Dralion?
Nós viajamos com 119 pessoas. São artistas de 29 nações diferentes. Sou o único brasileiro do espetáculo. Contando a América do Sul, tem eu e mais alguns argentinos.

Onde é sua base?
Meu endereço oficial é o Brasil. Pago impostos aqui, mas passo a maior parte do tempo viajando pelo exterior.

Por quantos países já passou?
Não parei para contar. Uma grande parte do espetáculo foi na América do Norte. Passamos por 101 cidades e, praticamente, por quase todos os estados dos Estados Unidos. O espetáculo fica uma semana, em média, em cada cidade. Também já fizemos turnê pelo Canadá, República Dominicana, Porto Rico, Venezuela, Panamá, Emirados Árabes e África. Antes de chegar para este período de férias, estivemos um mês na França. Estou indo, agora, para o Qatar, Líbano, Grécia, Suíça, Itália, Espanha e Portugal. No ano que vem, vamos para o leste Europeu.

Não há quem não se encante com a sincronia dos espetáculos do Cirque du Soleil. Como vocês conseguem atingir a perfeição?
O que acontece é o seguinte: eles já garimpam no mundo inteiro os melhores artistas em cada área. A exigência é muito grande. O nível de cobrança é muito forte. O Cirque du Soleil é a maior empresa de entretenimento do planeta. Temos todas as condições necessárias, no mais alto nível de tecnologia, para desempenhar bem o nosso trabalho, mas o fator humano é preponderante. Temos ensaios todos os dias. O show é muito dinâmico. Estamos sempre melhorando, ajustando alguma coisa para que o espetáculo esteja sempre novo e à frente. Nossa performance ao vivo é 100% aproveitada. A gente tem que estar muito preparado. Temos uma média de oito a dez shows por semana.

Como é a rotina dos artistas?
É uma imersão total. Vou para o local dos shows por volta das 10h30 e volto às 23 horas. Temos ensaios, reuniões e preparação todos os dias. A gente não se desliga. A própria natureza da atividade exige que você esteja concentrado o tempo todo.

Ao assistir o Cirque, as pessoas imaginam que estão em um sonho. Como é para o artista receber o carinho do público?
Para mim, é mesmo a realização de um sonho. Quando criança em Franca, sempre sonhei em percorrer o mundo tocando bateria. Deus me deu esta oportunidade com o Cirque du Soleil. Quando entrei para a companhia e percebi a grandiosidade da estrutura e a maneira como o profissional é tratado, foi uma bênção. Agradeço muito por poder participar deste trabalho de nível mundial. Tenho uma satisfação enorme. É uma realização profissional muito forte.

Qual apresentação foi marcante para você?
Todas, todas. A troca de energia com a plateia é muito importante. Os países latinos têm uma receptividade diferente dos da América do Norte. Para eles, é mais rotineiro assistir a grande shows. Na América do Sul e Central, o público é mais carente de grandes espetáculos.

Você passa um longo tempo percorrendo o mundo longe da família. O retorno financeiro é bom?
Sim, o retorno financeiro é bom, mas em minha sincera opinião, nada no mundo tem mais valor do que os momentos de convivência junto à família. Aliás, quero aproveitar e mencionar aqui que uma das grandes pessoas responsáveis pelo meu sucesso é minha amada esposa Raquel, que há 24 anos me compreende, apoia e está ao meu lado nas grandes decisões que tomamos juntos.